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Londres, seguindo os passos de Shakespeare

Londres, seguindo os passos de Shakespeare

A capital da terra da rainha Elizabeth é, também, o palco do dramaturgo

É verdade que Shakespeare jamais reconheceria a Londres de hoje. Mas em sua época, 1592 em diante, a cidade já era cosmopolita. Estava em rápida expansão e a população chegou a quadruplicar em menos de cem anos por conta das atividades mercantis, em parte sob o comando da rainha Elizabeth I. Quase tudo que o dramaturgo conheceu veio abaixo no grande incêndio de 1666. Mas as áreas de Blackfriars e Southwark, onde ele trabalhou e morou, ainda guardam as principais referências aos interessados em desvendar sua vida.

 

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No fim do século 16, a nobreza vinha a essas zonas fora dos limites de Londres, então “depravadas”, em busca de diversão “mundana”: teatros, bordéis, rinhas de cães e ursos, jogatinas, bebedeira. O centro efervescente de tudo isso é hoje a região de Bankside, que, de forma muito mais cool e cult, continua sendo um point cultural de Londres. À beira do Rio Tâmisa, reúne galerias, museus, teatros, bares e restaurantes bacanas – inclusive o todo-poderoso da arte contemporânea Tate Modern.

Entre os teatros dali, um se destaca por remeter especialmente aos tempos de Shakespeare: o The Globe, uma das principais playhouses de Londres entre 1599 e 1642, quando foi fechado pelos protestantes purita-nos. Ali eram encenadas as peças da companhia Chamberlain’s Men, da qual ele fazia parte como ator, dramaturgo e, mais tarde, sócio.

O atual Shakespeare’s Globe é uma réplica do que teria sido o teatro, localizado originalmente a 200 metros dali. É um projeto do cineasta americano Sam Wanamaker, que, visitando a capital inglesa em 1949, ficou desapontado ao ver que tudo o que havia no lu-gar original do Globe era apenas uma placa. Ele, então, empreendeu esforços para erguer uma reconstrução com base em descritivos da época, desenhos e trabalhos arqueológicos – até mesmo o método de construção, à base de madeira e junco, foi replicado. A casa, inaugurada em 1996, reproduz um típico teatro elisabetano. Hoje, a Globe Theatre Company se apresenta ali entre abril e outubro, encenando tanto peças de Shakespeare como de novos autores. A capacidade é de 1.600 espectadores e os preços começam em £ 5.

O complexo também conta com um segundo teatro, a Sam Wanamaker Playhouse, que reproduz outro antigo teatro coberto no mosteiro de Blackfriars, onde Shakespeare também trabalhava com sua companhia. Aqui, as peças acontecem no inverno, à luz de velas, e custam a partir de £ 10. Além das apresentações, há uma exposição com audioguia conjugada com um tour guiado de 45 minutos para conhecer a história do Shakespeare’s Globe. Outra opção de passeio leva ao local do antigo The Rose, a um quarteirão dali – trata-se do primeiro teatro elisabetano de Bankside, aberto em 1587 e único a ser escavado.

Ao prepararem terreno para a construção de um edifício corporativo em 1989, descobriram-se as fundações originais da playhouse – que serviram de inspiração para o projeto atual do Globe. Ali foram encontrados materiais arqueológicos que ajudam a entender a vida cotidiana dos séculos 16 e 17, como pe-daços de cachimbos, joias, cascas de amêndoas usadas para amaciar o chão e restos de comida. As ruínas, hoje, seguem preservadas no subterrâneo de um prédio de escritórios, protegidas por água e demarcadas com luzes vermelhas. Um pequeno espaço ao lado delas serve de pal-co para encenações de Shakespeare. A ideia é que, futuramente, haja ali um museu sobre a história do The Rose, expondo os itens encontrados nas escavações.

Mas esta é a Londres “óbvia” do Bardo. Com afinco, encontram-se muitas referências escondidas do outro lado do Tâmisa, nos arre-dores do antigo mosteiro de Blackfriars – justa-mente a área explorada por Declan McHugh, o ator guia do tour Shakespeare in The City Walk. Esse convento foi fechado em 1538 por decreto Mundodo rei Henrique VIII, que rompeu com a Igreja Católica e fundou sua própria religião para poder se casar com Ana Bolena. Abandonado, o Blackfriars teve seu refeitório convertido em teatro pela companhia de Shakespeare, como um complemento ao The Globe, que ficava do outro lado do rio. Ali, em ambiente fechado, as peças podiam ser encenadas mesmo no inverno, para um púbico notavelmente mais abastado.

Hoje já não resta nada do mosteiro, a não ser o nome emprestado ao bairro e à estação de metrô, que serve de linha de partida para o tour de McHugh. A partir dali, ele desvenda uma série de pontos de interesse – alguns demarcados com placas de identificação, outros completamente despercebidos. É também um jeito interessante de explorar o que agora é o coração financeiro de Londres, onde prédios modernos sombreiam ruelas medievais. Poucos turistas parecem se embrenhar por ali, restringindo-se quase sempre aos limites da monumental Catedral de St. Paul.

Agora, se parece muito sério seguir os segredos de Shakespeare por uma hora e meia, talvez você goste de fazê-lo incluindo um pub aqui e outro ali. A empresa Mind The Gap tem passeios guiados que cobrem as áreas de Southwark e Blackfriars enquanto faz uma espécie de “pub tour”, entrando em alguns dos mais tradicionais ba-res de Londres. À escolha do freguês, o rotei-ro pode esticar até a outra margem do Tâmisa, de volta a Southwark, onde fica o lendário The George Inn, indiscutivelmente, o pub mais fa-moso da cidade – tão importante que faz parte do patrimônio nacional. A construção atual está ali desde 1677, mas as origens são ainda mais antigas. Acredita-se que Shakespeare esteve em seu pátio avarandado, que serviria de palco para apresentações teatrais e possivelmente teria inspirado o formato e a disposição dos teatros elisabetanos. Hoje, como um bom e velho pub, é um ótimo lugar para provar a tradicional combinação de fish‘n’chips com uma pint de cerveja. Ou então, guarde a fome para as variadas opções
de comida do Borough Market, logo ao lado.

Por ali, a Southwark Cathedral, do século 12, também oferece algo de Shakespeare a quem procura. É Edmond, irmão de William, que está enterrado ali, mas o dramaturgo é lembrado com um belo vitral colorido, retratando
vários de seus personagens memoráveis. Outra igreja de Londres, ainda mais imponente, faz sua homenagem ao Bardo: a abadia de Westminster. O suntuoso templo gótico do século 13 é palco de todas as coroações da história inglesa – mais recentemente, sediou o casamento de William e Kate. Muitos monarcas estão enterrados aqui, como os dois reis protagonistas de peças shakespearianas, Henrique V e Ricardo II, além de grandes nomes da história,
como Charles Darwin, Isaac Newton, Charles Dickens e Laurence Olivier. Há um espaço dedicado a escritores da língua inglesa, vigiado por uma estátua de Shakespeare. Ao lado, repousam versos de A Tempestade – sua última
peça, que, acredita-se, seria também uma espécie de despedida, muito compatível com o fato de que poucos registros tenham sobrado de sua vida… “As torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão~de sumir-se sem deixarem vestígio.”

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  • a matéria foi publicada na edição 81, de abril de 2016, que você pode comprar aqui.