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Noruega: ver para crer

Noruega: ver para crer

História viking, ferrovias cênicas e os inesquecíveis fiordes: embarcamos em um roteiro clássico de cinco dias, entre Oslo e Bergen

Por Cristiane Sinatura

Nada prepara você para o momento em que um fiorde se revela diante dos seus olhos. A gente sabe mais ou menos o que esperar, de tanto ver fotos na internet – afinal, quem vai para a Noruega aguarda ansiosamente por esse encontro. Mas aí, ao vivo, cara a cara, fica difícil explicar o que se vê: as montanhas irrompem de forma abrupta da água e vão às alturas assim, de repente. O canal por onde se navega é relativamente estreito, então, ao olhar para os lados, tudo o que se vê são os paredões rochosos, que mudam de aspecto de acordo com a estação do ano. Branquinhos no inverno, verdinhos no verão. Se bobear, tem neve o ano inteiro lá no alto.

Às paisagens alucinantes soma-se a qualidade de vida e eis um destino com presença. Não à toa, a Noruega é, de acordo com um relatório recente da ONU, o país mais feliz do mundo, considerando fatores sociais, econômicos e políticos. E pensar que, antes da descoberta
do petróleo em 1970, ela chegou a ser uma das nações mais pobres da Europa ao se separar da vizinha Suécia, no começo do século 20.

Mas ainda que sejam o ponto alto, os fiordes não serão os únicos atrativos de uma viagem por essas bandas escandinavas. O roteiro conhecido como Norway in a Nutshell é um resumo bem detalhado do que o país tem a oferecer, combinando deslocamentos em trens, ônibus e barcos, em quantos dias o turista quiser. Deixa-se o cenário cosmopolita natural da capital Oslo e termina-se na fofa e histórica
Bergen, passando por estradas desafiadoras, ferrovias cênicas, vilarejos no meio do nada, lagos-espelho e claro, eles, os fiordes. De quebra, a gente ainda mergulha na história dos vikings aqui e ali.

foto: shutterstock

A seguir, traçamos um roteiro passo a passo para você aproveitar melhor cada momento dessa viagem. Mas já fique de sobreaviso: nem com tudo tão mastigadinho, você estará devidamente preparado para encarar os fiordes… E quer saber? Melhor assim. O fator surpresa é parte da emoção.

2 dias em Oslo

Oslo é a versão norueguesa do termo “metrópole”. Esqueça, portanto, trânsito caótico, aglomerados de gente, muros pichados, lixo na rua. Substitua o cinza do concreto pelo verde das florestas que cobrem as colinas vizinhas e complete a paisagem com as águas de um fiorde. Fundada em 1048, ela abriga 700 mil moradores sem perder a cara de cidade pequena. Apresentações feitas, reserve pelo menos dois dias completos no roteiro para conhecê-la melhor – caminhadas, metrô e bicicletas levarão você aos principais atrativos.

Dia 1
Manhã: Museu Munch
Estação Tøyen do metrô
Talvez você não saiba, mas é norueguesa a célebre imagem de um humanoide de boca aberta com as mãos no rosto, em desespero. Talvez não saiba também que o autor, Edvard Munch, produziu quatro versões de sua obra-prima O Grito. Isso tudo e mais um pouco se aprende no museu dedicado exclusivamente ao famoso pintor modernista, com mais de mil telas e outros 26 mil trabalhos, entre esculturas e fotografias. Em 2020, espera-se a inauguração de uma nova sede, em um controverso prédio de 12 andares. Mas se você prefere ver arte de forma mais abrangente, pode substituir o museu de Munch pela Galeria Nacional, por exemplo. Ali está exposta outra versão de O Grito, além de Monet, Picasso, Gauguin, Rodin e Cézanne.

Manhã/ tarde: centro
Caminhe por 2 km desde o Museu Munch ou desça na estação Stortinget do metrô
A região central guarda as atrações mais famosas da cidade, então vale dedicar um tempo a andar pelas ruas sem compromisso. A área histórica, que remete à reconstrução de Oslo depois de um grande incêndio no século 17, atende pelo nome de Kvadraturen. Ali estão alguns dos prédios mais antigos da capital. O roteiro pode começar pela catedral (Domkirke), finalizada em 1697 e hoje usada também pela Família Real.

Dali, siga a pé pela Karl Johans Gate, a rua principal, cheia de lojas, bares, restaurantes, cafés e bares de jazz. É onde estão todos os clássicos turísticos de cacife internacional, como Zara, Mango, H&M, Hard Rock Café, Burger King… Mas você provavelmente vai querer algo mais autêntico para o almoço: nesse caso, desvie três quarteirões até o Det Gamle Raadhus, no antigo prédio da prefeitura, para provar especialidades locais, como os sanduíches abertos e o bacalhau.

foto: shutterstock

Passando pelo Teatro Nacional, chega-se ao fim da via, onde reluz o Palácio Real, residência oficial da monarquia desde o século 19 – atualmente, o país é liderado pelo rei Harald V e sua consorte Sonja. Imponente sem ser ostensivo, o palácio abre alguns de seus aposentos
para visitas guiadas no verão. Diariamente, às 13h30, acontece a troca da guarda.

Tarde/ noite: região do porto
Caminhe 2 km desde o palácio
À beira do fiorde de Oslo, o porto sempre foi uma área importante na história local. Vigiando as embarcações que iam e vinham, o complexo de Akershus começou como castelo real em 1299 e também fortaleza de proteção. Hoje o forte abriga museus das forças armadas e da resistência norueguesa na Segunda Guerra, além de oferecer tours guiados. Dizem, inclusive, que teria inspirado cenários da animação Frozen.

foto: shutterstock

Dali, caminhe 800 metros até o Nobel Peace Center, museu sobre o prêmio que consagra ativistas da paz. Há exposições permanentes e temporárias sobre a história da premiação, os vencedores e seus trabalhos. Até novembro, por exemplo, está em cartaz uma mostra sobre o presidente colombiano Juan Manoel Santos e seus esforços contra as Farc. Aos fins de semana, acontecem tours guiados em inglês às 14h, incluídos no ingresso.

Termine o dia com um giro pelo recém-renovado Aker Brygge, calçadão cujos antigos estaleiros foram convertidos em butiques, restaurantes e áreas de entretenimento. Lá na ponta está o museu Astrup Fearnley, de arte moderna e contemporânea – a exibição começa logo na fachada do prédio, assinado pelo arquiteto Renzo Piano. Se quiser ter uma vista panorâmica da cidade, suba à torre Sneak Peak, com 54 metros de altura e aberta ao público durante o verão. Em noites de clima ameno, vai bem jantar ao ar livre, como no Hanami, especializado em churrasco japonês; no norueguês Rorbua, onde se pode provar carne de baleia e rena; e o Sorgenfri, para conhecer a culinária da vizinha Dinamarca.

Dia 2
Manhã: Frogner Park
estação Majorstuen do metrô
O escultor norueguês Gustav Vigeland foi o responsável por dar vida à maior porção verde de Oslo. São dele as 212 esculturas espalhadas pela área que leva seu sobrenome, representando as fases da vida humana, desde a infância até a velhice, em uma série de poses e expressões. O ápice é a enorme torre monolítica de 14 metros de altura, formada por um emaranhado de 121 corpos de pedra. Além disso, o parque tem espaço para piquenique e churrasco, playground, jardim com 14 mil rosas e piscina pública.

foto: shutterstock

Manhã/ tarde: Bygdøy
Caminhe 2,5 km desde o parque ou pegue um táxi/ Uber
A península de Bygdøy reúne vários museus que cobrem uma série de aspectos da história e da vida norueguesa – escolha dois ou três, não são muito grandes. Para entender a cultura nacional, o Museu do Folclore Norueguês é um espaço a céu aberto que reúne 155 casas típicas de todo o país, além de artesanato, armas e roupas de época.

Na sequência, vem o Museu do Barco Viking, onde há embarcações originais de mais de mil anos, bem como os objetos funerários encontrados dentro delas – o costume mandava que o chefe viking fosse enterrado junto com o seu barco. Perto fica o Museu Fram, construído para abrigar o veleiro homônimo, que percorreu distâncias recorde rumo aos extremos norte e sul do planeta – destaque
para o simulador que reproduz o frio e os perigos polares. Os oceanos continuam protagonistas no Museu Kon-Tiki, sobre a travessia do Pacífico feita por Thor Heyerdahl a bordo de uma jangada, e no Museu Marítimo Norueguês, que abarca desde pesca até navegação. Para quebrar a maratona cultural, vai bem alugar uma bicicleta (oslobysykkel.no) em frente ao Museu do Folclore para percorrer a ciclovia de sete quilômetros pela península. Pedalando, chega-se às praias de Huk e Paradisbukta – no verão, ficam lotadas e têm até vôlei na areia. Nada que se compare a uma Copacabana, mas por que não dar uma olhadinha?

Noite: Oslo Opera House
A Opera House é um prédio moderno construído em mármore, cheio de vidros e rampas, que convida os passantes a andarem em cima de seu “teto”. Só caminhar por ali e fotografar já vale a pena, mas se você quiser uma experiência mais completa, escolha entre as alternativas: (1) fazer um tour guiado pelas salas de espetáculo
(2) assistir a uma apresentação de ópera, balé ou orquestra
(3) jantar nos restaurantes anexos – o Argent serve menu de ingredientes sazonais e a brasserie Sanguine tem vista para o fiorde.

foto: shutterstock

+ Bônus
Se você esquia, acrescente um dia no roteiro para curtir a Holmenkollen, pista inaugurada em 2010, que funciona o ano inteiro. Com
60 metros de altura, ela tem design arrojado que parece desafiar as leis da física. Já o Parque de Inverno, 40 minutos de Oslo, tem 18 pistas e uma queda vertical de 381 metros.

2 dias no roteiro Norway in a Nutshell

De Oslo a Bergen, são menos de 500 quilômetros, que poderiam ser feitos numa tacada só para quem está de carro. Mas no passeio Norway in a Nutshell (“Noruega numa casca de noz”), a graça é justamente ir devagar, contemplando a paisagem conforme se atravessa o país em trem, barco ou ônibus, com navegação pelos fiordes. Dá, sim, para fazer em um dia, mas vai bem pernoitar no meio do caminho se quiser acrescentar passeios extras – os hotéis podem ser adicionados no momento da compra do pacote. Além de Oslo e Bergen, também é possível começar pelas paradas intermediárias (Myrdal, Flåm, Gudvangen e Voss). Os horários são combinados de forma que você possa emendar um trecho no outro sem muito tempo de espera. O passeio acontece o ano todo, mas é melhor de abril a outubro, quando a neve do inverno não mais impede algumas etapas e atividades. A partir de NOK 1.890 (R$ 692), norwaynutshell.com

Partida
1. Oslo
Da estação central de trem, a viagem começa percorrendo, por cinco horas, um trecho da ferrovia de Bergen. Projetada em 1894, a via é considerada uma das mais bonitas da Europa. O trajeto chega a 1.200 metros de altitude, na estação de Finse, onde se pode ver neve até meados de junho.

2. Myrdal
Aqui se embarca no trem histórico que segue pela Ferrovia de Flåm, inaugurada em 1940. São apenas 20 quilômetros percorridos em uma hora, com muitas curvas e subidas. Entre um túnel e outro (20 ao todo), despontam cenários lindíssimos, com algumas paradas para foto – como na cachoeira Kjosfossen, com 93 metros de altura, que congela no inverno.

3. Flåm
Nesta pequena vila, ponto final deste trecho ferroviário, pode-se pernoitar em hotéis como o Fretheim e acrescentar tours como caiaque, trilhas na neve e visita ao mirante de Stegastein, que se espicha 650 metros acima do fiorde de Aurland. Mas quem quiser pode seguir direto com a parte de navegação. Os cruzeiros correm pelos fiordes de Aurland e pelo Nærøy – este último, patrimônio da Unesco – e vão até o vilarejo de Gudvangen em cerca de duas horas. Outro jeito de chegar a Gudvangen, sem ser com as balsas convencionais, é pelo fiorde safári, pago à parte – um emocionante passeio em lancha rápida, que pode incluir parada na vilinha de Undredal, famosa pelo queijo de cabra.

foto: shutterstock

4. Gudvangen
Na extremidade do fiorde, o vilarejo é point para prática de esportes como windsurfe, paragliding e caiaque. O hotel Gudvangen Fjordtell pode ser uma parada de pernoite alternativa a Flåm. Daqui, a viagem segue de ônibus pelo vale de Nærøydalen – de maio a setembro, o trajeto é feito pela Stalheimskleiva, tida como uma das estradas mais íngremes da Europa.

5. Voss
Daqui parte o último trem, que leva até Bergen em duas horas. Como Voss é considerada a capital dos esportes radicais da Noruega, quem quiser pode estender a parada e acrescentar rafting no rio ou simulador de voo de paraquedas.

Chegada
6. Bergen
1 dia em Bergen

Você pode tentar achar outra palavra melhor para descrever, mas, por aqui, concluímos assim: Bergen é fofa. Vista da água, a fileira de casario colorido parece cenário pintado à mão. Mas quando se anda por suas ruas, é fácil ver que, apesar de histórica, ela é jovem – 10%
de seus 265 mil moradores são estudantes. A segunda maior cidade da Noruega foi fundada em 1070 e, até 1299, funcionou como capital. De 1350 a 1750, foi parte da Liga Hanseática, aliança alemã que dominava o comércio do Mar do Norte e o Báltico. Hoje, a herança dessa fase áurea agrega valor à paisagem pitoresca – e tal combinação demanda que se dedique, pelo menos, um dia inteiro à cidade.

Manhã: Museus Kode
Este complexo reúne quatro prédios, cada um dedicado a uma abordagem diferente: arte decorativa, contemporânea (com trabalhos de Pablo Picasso e Paul Klee), escandinava (com foco em Edvard Munch) e para crianças. Se quiser almoçar por aqui, aposte no Lysverket, que prepara pratos de cozinha nórdica contemporânea.

Manhã/ tarde: Bryggen
Caminhe por 1 km desde os museus
Remetendo ao século 13, o Mercado de Peixe (Fisketorget), à beira do cais, é um ótimo lugar para ver a tradição pesqueira da Noruega. Lagostas, caranguejos gigantes, caviar, camarão, salmão e o famoso bacalhau estão todos lá – tem até carne de baleia, iguaria muito comum
por aqui. Boa dica se você ainda não tiver almoçado: alguns feirantes preparam o pescado fresquinho que você escolher, ali na hora mesmo.
Passeie pela região do porto, conhecida como Bryggen e declarada Patrimônio da Humanidade por ser o único conjunto hanseático reservado no mundo. Ao redor, as casas de madeira, antigas oficinas, foram convertidas em bares e lojas de suvenires. Uma delas abriga o
Museu Hanseático, que reproduz uma construção típica da época, com oficina, armazém, cozinha, escritório e dormitórios. Já a história do porto em si pode ser conhecida no Museu Bryggens, a 400 metros dali, que expõe achados arqueológicos do século 11. Na extremidade do Bryggen, ergue-se a Torre de Rosenkrantz, fortaleza do século 13 que serviu de residência real. Do topo, a vista é encantadora.

foto: shutterstock

Tarde/ noite: Fløyen
Pegue o funicular Fløibanen
Especialmente no verão, quando o sol se põe bem tarde, vale subir de funicular desde o porto até o topo do monte Fløyen, a 320 metros de altura. Ali há um mirante de vistas memoráveis, trilhas para caminhada, aluguel de bicicleta, lojinha de suvenires e, para jantar, o Folkerestaurant, que tem uma gostosa área ao ar livre e pratos com lagosta e carne de veado.

+ Na Noruega
Para aventureiros, a Noruega reserva uma boa coleção de atividades além do circuito Oslo-Bergen – mas também tem passeios light que não demandam força nas canelas.

1. Geiranger:
375 quilômetros ao norte de Bergen, esta vila bonitinha de 300 habitantes fica na beira do fiorde de mesmo nome, um patrimônio da UNESCO. tem passeios de barco para ver, de perto, as cachoeiras que escorrem às dezenas pelos paredões das montanhas. Outras atividades disponíveis na região são as pescas guiadas, o caiaque e o safári em lancha.

foto: shutterstock

2. Ålesund:
A cem quilômetros de Geiranger, a “capital do bacalhau”, responsável por 90% da exportação da Noruega, abriga belas construções em
estilo art nouveau, o aquário Atlantic Sea Park, com espécies encontradas no Mar do Norte e nos fiordes (inclusive o peixe que, seco e salgado, dá origem ao bacalhau), e o mirante de Fjellstua, acessível por uma escadaria de 418 degraus.

3. Atlantic Road:
No norte, entre as cidades de Molde e Kristiansund, a estrada mais cênica da Noruega conecta ilhotas com pontes onduladas, avançando sobre o mar ao longo de oito quilômetros.

4. Stavanger:
Nos arredores desta cidade, a 200 quilômetros ao sul de Bergen, fica o famoso Preikestolen (“rocha do Púlpito”), uma plataforma natural 604 metros acima do fiorde de Lyse. A trilha para chegar dura cerca de duas  horas – a dificuldade não é alta, mas requer alguma disposição. No mesmo fiorde, mas a cem quilômetros da cidade, fica a Kjeragbolten, uma rocha arredondada presa em uma fenda a mais de mil metros de altura, sobre a qual os turistas adoram tirar fotos. é preciso caminhar cinco horas (somando ida e volta) com trechos íngremes até lá – não indicado para iniciantes.

foto: shutterstock

5. Tromsø:
No norte do país, a cerca de duas horas de voo de Oslo ou Bergen, chega-se ao Ártico, onde é possível ver a aurora boreal entre setembro e março – combinando sorte com uma série de fatores naturais. De maio a julho, no verão, acontece o sol da meia-noite, com luz natural 24 horas por dia.

6. Trolltunga:
A 150 quilômetros de Bergen, fica esta plataforma com formato de “língua de troll”, 700 metros acima do lago Ringedalsvatnet. De nível difícil, a trilha de ida e volta soma 23 quilômetros.

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