Caso Malévola: o que todo viajante precisa pesquisar sobre o país de destino antes de embarcar

Malévola e amiga foram presas no Egito após vídeos em espaço público: o caso acende o alerta sobre o que pesquisar antes de viajar para países com cultura e leis diferentes.

O caso das duas influenciadoras brasileiras presas em Alexandria, no Egito, na última terça-feira (20), reabriu um debate importante no turismo: o que os viajantes conhecem sobre as leis e os costumes do país que vão visitar antes de embarcar?

Ao chegar em um país de cultura diferente, o viajante já está sujeito às leis locais desde o desembarque. (Foto: shutterstock)

Malévola Alves, de 22 anos, e a amiga Bruna Mercatelli foram detidas após a circulação de vídeos em que apareciam fazendo gestos considerados obscenos em via pública. Após cerca de 24 horas detidas e o pagamento de fiança, as duas foram liberadas na quarta-feira (21) com assistência da Embaixada do Brasil no Cairo e desembarcaram no Brasil na noite desta quinta-feira (22). Mesmo após a soltura, ambas podem continuar respondendo criminalmente no Egito.

O episódio serve de alerta não apenas para o público LGBTQIA+, mas para qualquer viajante.

O Egito e suas leis

O Egito é um país de maioria muçulmana, com cerca de 90% da população aderindo ao islamismo sunita, segundo dados do governo egípcio. O islã é a religião oficial do Estado, conforme previsto na Constituição egípcia de 2014, e os valores islâmicos influenciam diretamente a legislação e os costumes locais, incluindo regras de comportamento em espaços públicos, vestimenta e conduta moral.

Mulheres egípcias em trajes tradicionais. (Foto: shutterstock)

Embora a homossexualidade não seja formalmente criminalizada no texto da lei egípcia, leis vagas sobre “moralidade pública” e “devassidão” são frequentemente utilizadas para deter pessoas cujo comportamento as autoridades considerem contrário aos costumes locais, segundo a organização de direitos humanos OutRight Action International. Não existe no país qualquer proteção legal contra discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero.

Vista do Cairo, capital do Egito, com mesquitas ao fundo. (Foto: shutterstock)

Isso significa que comportamentos completamente aceitos no Brasil, como gestos, demonstrações de afeto em público, vestimentas ou conteúdos publicados em redes sociais durante a viagem, podem ter consequências legais sérias em território egípcio.

Um cenário global que exige atenção

O Egito não é um caso isolado. Segundo o Mapa de Riscos LGBTQ+ 2026, elaborado pela Riskline em parceria com a Safeture e publicado em junho deste ano, 91 países são classificados como alto risco para viajantes LGBTQIA+, 62 como risco médio e apenas 80 como risco normal, em uma avaliação que considerou 233 países e territórios. O relatório aponta que o cenário piorou em relação ao ano anterior, com novos retrocessos legislativos em diversas regiões.

Segundo a empresa de análise de risco A3M, pessoas LGBTQIA+ enfrentam leis discriminatórias em 76 países. Em pelo menos 12, a pena de morte é aplicável, incluindo Arábia Saudita, Irã, Iêmen, Afeganistão, Somália e partes da Nigéria.

Mas o risco não se limita à comunidade LGBTQIA+. Em muitos países, qualquer comportamento interpretado como ofensivo à moral pública, independentemente da identidade de quem o pratica, pode gerar abordagens policiais, detenções ou processos criminais.

O que pesquisar antes de viajar

Pesquisar o destino vai muito além de escolher o hotel e montar o roteiro turístico. Confira o que verificar antes de embarcar:

Turista consulta o celular em um templo histórico no Egito. Imagem gerada por IA

Consulte o Itamaraty antes de embarcar

O Ministério das Relações Exteriores mantém alertas de viagem atualizados no portal gov.br, com orientações específicas por país.

Página do Ministério das Relações Exteriores no portal gov.br com a lista de embaixadas e consulados brasileiros no exterior.

Em caso de emergência no exterior, a orientação do próprio Itamaraty é acionar imediatamente a embaixada ou o consulado brasileiro mais próximo, que pode prestar assistência consular, orientar juridicamente e facilitar a comunicação com familiares no Brasil, conforme confirmado durante o caso das influenciadoras no Egito.

Pesquise as leis locais

O que é permitido no Brasil pode ser crime em outro país. Comportamentos em espaços públicos, vestimenta, consumo de álcool, fotografar locais específicos e gestos estão sujeitos às leis do país visitado.

O Itamaraty já orientou brasileiros, em alertas anteriores, a não divulgar nas redes sociais imagens ou vídeos que possam ser considerados ofensivos às autoridades locais, especialmente em países com legislações mais restritivas.

Entenda o contexto cultural e religioso

Países com forte influência religiosa na legislação tendem a ter normas de comportamento público mais rígidas. O Egito, por exemplo, tem cerca de 90% da população muçulmana e o islamismo como religião oficial do Estado, conforme previsto na Constituição egípcia de 2014.

Para viajantes LGBTQIA+, consulte o Mapa de Riscos LGBTQ+ 2026

Publicado pela Riskline em parceria com a Safeture, o relatório avalia 233 países e está disponível gratuitamente online. A ILGA World e a Equaldex também mantêm bases de dados atualizadas sobre legislação por país.

O que fazer se for detido no exterior

Se um cidadão brasileiro for detido em outro país, a orientação do Itamaraty é acionar imediatamente a embaixada ou o consulado brasileiro mais próximo.

O órgão pode prestar assistência consular, orientar juridicamente e facilitar a comunicação com familiares no Brasil, como ocorreu no caso das influenciadoras brasileiras no Egito. Os contatos de emergência consular por país estão disponíveis no site do Itamaraty.

Vale reforçar que o objetivo deste guia não é desestimular viagens a países com culturas diferentes da brasileira. O Egito, assim como outros destinos do Oriente Médio e do Norte da África, reúne patrimônios históricos, paisagens e experiências que não existem em nenhum outro lugar do mundo. A questão não é evitar esses destinos, mas chegar preparado.

Conhecer as regras do lugar que se vai visitar é, antes de tudo, uma forma de respeito à cultura local e de proteção ao próprio viajante.

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