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Ilhéus cravo e canela

Ilhéus cravo e canela

A cidade de Gabriela mostra o que é que a Bahia tem em história, gastronomia e cultura

Por Cristiane Sinatura

Há personagens que mudam definitivamente a história de um lugar. Eis um exemplo clássico: Ilhéus e sua Gabriela, a retirante sertaneja com cheiro de cravo e cor de canela. A cidade nunca mais foi a mesma depois que o escritor Jorge Amado criou a personagem que dá nome ao livro Gabriela, Cravo e Canela, de 1958. Agora, a mulata, que ganhou vida com a atriz Sônia Braga nos anos 70, voltou à televisão na pele de Juliana Paes, em uma minissérie produzida pela Rede Globo.

A obra só fez enriquecer ainda mais o legado cultural de Ilhéus, que recebe visitantes curiosos para conhecer os cenários do romance entre a mulata brejeira e o sírio Nacib Saad, o “moço bonito”, dono do Bar Vesúvio. São visitantes que vêm do mundo inteiro, já que Gabriela virou sucesso em 32 idiomas.

Os lugares retratados no livro existem e ficam em um centrinho conhecido como Quarteirão Jorge Amado, cuja arquitetura remete aos tempos prósperos e coronelistas do cultivo de cacau – o auge, nos anos 20, é precisamente a época retratada pelo autor. Hoje, esse miolinho leva leitores e turistas para uma viagem pela história. De quebra, Ilhéus ainda é banhada por belas praias.

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Sabor de Gabriela

Despida da poeira que lhe cobria inteira no “mercado de escravos”, onde Nacib a recolheu, Gabriela se revela, tanto quanto uma amante insaciável, uma cozinheira de sabores provocantes. Por isso, não há como ir a Ilhéus sem se deixar envolver pela gastronomia peculiar. A começar pelo Bar Vesúvio, também conhecido como Bar do Nacib, onde a mulata era cozinheira. Hoje, o bar se orgulha de servir o autêntico “quibe com sabor de Gabriela”.

Fundado em 1910 por dois italianos (daí o nome aludindo ao vulcão que assolou Pompeia), o lugar foi comprado 35 anos mais tarde por um libanês, que colocou a esposa baiana para cuidar da cozinha. Aí Jorge Amado se inspirou para criar o casal protagonista. Hoje, o Vesúvio tem, além dos clássicos da culinária árabe, especialidades com nomes inspirados no romance: Gabriela e Nacib são dois preparos diferentes de camarão, o dela com creme de leite e o dele refogado no azeite; Jorge Amado é um fi lé de peixe grelhado com alcaparras.

Igreja de Nossa Senhora da Piedade (Foto: Roberto Santos/ Secom Ilhéus)

Igreja de Nossa Senhora da Piedade (Foto: Roberto Santos/ Secom Ilhéus)

Aliás, dá até para dividir uma mesa com o escritor, que está ali pensativo em forma de escultura. À noite, tem música ao vivo, do forró à bossa nova. Nas terças-feiras de verão, acontece a apresentação de uma peça de teatro inspirada na narrativa amadiana. Pelo que conta Jorge Amado, perto do Vesúvio havia um beco que levava discretamente ao Bataclan, o mais famoso cabaré/ cassino de Ilhéus. Lá Nacib, como todos os homens da alta roda de Ilhéus, passava as noites antes de conhecer Gabriela.

Na “vida real”, o bordel era comandado pela cafetina Antonia Machado – no livro, Maria Machadão. A passagem secreta já não se vê mais, se é que um dia existiu além das páginas do romance. Mas o Bataclan segue de pé, no mesmo palacete de 1864. Com a proibição de bordéis e jogatinas, a casa ficou muito tempo fechada e foi reinaugurada em 2004 como um misto de centro cultural, café e restaurante. Abriga exposições, oficinas, mostras de cinema e música ao vivo. No cardápio, Gabriela é pato cozido com vinho tinto, Nacib é tabule com camarões, Maria Machadão é peixe grelhado em molho de moqueca, e Tonico Bastos, um dos amantes da mulata, é queijo coalho empanado com coco ao melaço de cana.

Mas é bom saber que a gastronomia de Ilhéus vai além dos sabores gabrielescos. Queridinho dos turistas, o Barrakitika é a pedida da noite com sua combinação de sushi bar, mesas ao ar livre e música ao vivo. Durante o dia serve refeições rápidas com sabor regional, como feijoada e carne de sol. Aos que quiserem dar uma fugidinha da culinária local, vale conhecer o restaurante italiano Marostika – destaque, claro, para as massas. E não há como falar de Ilhéus sem falar do cacau.

A ligação entre os dois é tão grande que a cidade ficou conhecida como a capital da Costa do Cacau. Essa região no sul da Bahia se destacou pela produção cacaueira, em meados do século 19. Ainda hoje, é possível conhecer as fazendas de cultivo remanescentes e acompanhar de perto todas as etapas do ciclo, terminando com degustação de chocolate caseiro e suco de cacau. As fazendas mais procuradas são a Primavera e a Yrerê, que fazem tours com agendamento prévio.

Nos passos do escritor

A modesta igreja que aparece no conto hoje não existe mais. Em seu lugar, logo ao lado do Vesúvio, ergueu-se a Catedral de São Sebastião, finalizada em 1967. A fachada neoclássica, os vitrais artísticos e as abóbadas monumentais fizeram da catedral o mais imponente cartão-postal de Ilhéus. Todos os anos, em janeiro, suas escadarias são lavadas por baianas carregando vasos com água de cheiro e flores brancas.

O ritual vira festa, daquelas que só a Bahia sabe fazer: fiéis, turistas, blocos afros e foliões de trios elétricos se misturam sem distinção. Também no Quarteirão Jorge Amado fica a casa onde o escritor, nascido na cidade vizinha Itabuna, passou a infância. Ali, no palacete neoclássico de 1928, com piso de jacarandá e azulejos ingleses, Amado afirmou ter-se feito homem e escritor.

Em retribuição ao amor incondicional de seu filho “adotivo”, Ilhéus transformou a antiga residência na Casa de Cultura Jorge Amado, com objetos pessoais expostos e vários exemplares de suas obras. Ao redor do palacete, espalham- se as casas onde teriam morado alguns personagens, como Tonico, affair da jovem. Logo ali se vê também o antigo porto, que, na trama, passava por obras para solucionar o atolamento dos grandes navios em bancos de areia. Hoje, Ilhéus tem um novo porto, bem mais moderno, que virou figurinha fácil na rota dos cruzeiros nacionais.

Gabriela gostava de sentir a areia e o mar nos pés e muito lamentou quando, casada com Nacib, não pode mais fazê-lo por ser agora uma senhora. Tristeza justificada, afinal, praia em Ilhéus é o que não falta. As enseadas urbanas seguem o padrão das grandes cidades litorâneas, com a avenida acompanhando a faixa de areia (ainda que as do Pontal sejam um pouco mais retiradas). O mar aqui tem tons um pouco mais escuros, por conta do rio que deságua perto. Próxima ao Quarteirão Jorge Amado, no centro, a Praia do Cristo tem uma escultura do Redentor à beira da orla, inspirada no célebre monumento carioca.

Vista do Mirante da Piedade (Foto: Roberto Santos/ Secom Ilhéus)

Vista do Mirante da Piedade (Foto: Roberto Santos/ Secom Ilhéus)

A Praia do Sul é a mais frequentada e tem boa infraestrutura, com várias barracas servindo pratos e porções à base de frutos do mar. Afastando-se um pouco do centro, sete quilômetros, e com águas em tons mais claros, fica a Praia dos Milionários – os barões do cacau já mantinham mansões por ali, daí o nome curioso. Para momentos mais sossegados, o conjunto conhecido como Praia do Norte cai bem: são 50 quilômetros divididos em oito praias tranquilas, com águas calmas e mornas de um lado e a Mata Atlântica serpenteando do outro.

Quem quiser uma dose extra de tranquilidade nas redondezas, com direito a regalias como campo de golfe e aeroporto privativo, vai se refestelar no Hotel Transamérica, na Ilha de Comandatuba, a 60 km de Ilhéus. Há mais para ver e fazer em Ilhéus do que nos mostra Jorge Amado. No quarteirão que leva o nome do escritor, nem tudo tem a ver com Gabriela – vide a Igreja Matriz de São Jorge dos Ilhéus, de 1556. Ali há um grande painel contando a história ilheense, além do Museu de Arte Sacra, com acervo de peças barrocas e documentos religiosos.

Por perto, fica a Casa dos Artistas, onde acontecem encenações teatrais e exposições diversas. Também há o que explorar ao redor de Ilhéus, como a vila de Olivença, onde ficam algumas das praias mais bonitas do sul da Bahia. A de Black Door, por exemplo, é bastante procurada por surfistas por conta de seu visual selvagem e das ondas fortes. Vale conhecer também as piscinas e cachoeiras artificiais no Balneário de Tororomba. Dizem que suas águas ferruginosas, combinadas com o sol, promovem um bronzeado digno de Gabriela.

Os amantes da natureza podem se embrenhar pela Estrada Parque Ilhéus, que pode ser percorrida também de bicicleta. A via releva ao longo de seus 70 quilômetros praias semisselvagens, manguezais, cachoeiras e mirantes. Ao fim dela, chega-se a Itacaré, outra cidade da Costa do Cacau que também vale a visita. Mas aí já é outra história, que não a de Gabriela, cravo e canela…

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