Relembrando o esplendor de uma era dourada, o Fera Palace, primeiro hotel de luxo da Bahia, une memória, conforto e modernidade com vista para o mar


Já perdi as contas de quantas vezes estive em Salvador. Conheço os cantinhos do Pelourinho, as vielas do Centro Histórico, vi o carnaval correr ali, assisti o desfile de Páscoa em um sábado de Aleluia e sei do impacto que é ver um pôr do sol da Cidade Alta… Até que um belo dia subi ao rooftop do Fera Palace Hotel e a Baía de Todos os Santos se mostrou em um ângulo completamente diferente.
Foi ali, com um coquetel nas mãos e sentada nas espreguiçadeiras alinhadas à piscina que corre de ponta a ponta do terraço, que Salvador voltou a me surpreender. Mais do que um hotel de detalhes, o Fera também é um hotel lapidado por sua história.


Salvador: o que fazer na capital da Bahia
A origem do primeiro hotel de luxo da Bahia
Aberto nos anos de 1930 como Palace Hotel, a novidade escolheu a emblemática Rua Chile, considerada a primeira rua do Brasil, como seu endereço. Logo penetrou no imaginário coletivo ao ser classificado como o primeiro hotel de luxo da Bahia.
Posicionado em uma esquina, o edifício em formato de prisma triangular recebeu influência direta do icônico Flatiron Building, construído em Nova York trinta anos antes. A semelhança é grande, mas seus detalhes são únicos: a fachada com mais de 600 janelas de madeira robusta e centenas de elementos em relevo foram tombadas pelo Iphan e são um patrimônio da cidade.
De ponto de encontro de artistas ao fechamento
Não precisou de muito tempo para o hotel virar o centro da vida social soteropolitana e ponto de encontro de intelectuais e artistas. Pablo Neruda, Carmem Miranda, Grande Otelo e Orson Welles circularam por seus salões decorados ao estilo art déco.


No fervor de tudo isso estava o cassino, imortalizado pela literatura na obra Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado. E assim seguiu até a proibição dos jogos de azar no Brasil, em 1946.
De forma lenta e contínua, o centro de Salvador foi perdendo seu brilho e o abandono do coração da cidade fez com que o Palace fechasse. Foram décadas de esquecimento até a compra do imóvel pelo grupo Fera Investimentos e a reabertura em 2017.
A renovação priorizou sua herança arquitetônica e modernizou as suítes e áreas comuns. Seu rooftop virou o símbolo desse novo momento, e a dupla piscina + vista para a Baía de Todos os Santos retomou a popularidade de um dos pontos mais desejados da capital baiana.


Curioso é que o passado e o presente caminham por ali lado a lado. Chegamos até o alto do prédio no antigo elevador, pequeno, de madeira, sem luz branca e que sobe ao som de música baiana. Da mesma forma é a entrada do hotel, toda repaginada, que se abre para o lobby com piso de mosaico preto e branco.


A Bahia está presente em cada peça decorativa feita com madeira, búzios, palha e miçangas da artista local Nádia Taquary. Na recepção, a antiga caixa de madeira para as chaves e cartas são uma lembrança permanente do seu passado.
Onde comer no Fera Palace
O bar e o restaurante Arento estão no térreo. Aberto há pouco mais de um ano, o Arento passeia pela cozinha mediterrânea com toques baianos. Essa união traz burrata artesanal e croquete de cupim no mesmo cardápio. Provei o polvo grelhado com camarões sobre um risoto encorpado e um generoso rigatoni com ragu. Mesmo quem não está hospedado pode (e deve!) ter uma experiência gastronômica ali.


As suítes que preservam a memória do hotel
Já os corredores que levam às acomodações lembram a casa das nossas avós, com paredes em tons de verde erva-doce, piso de parquet original e pouca iluminação. São 81 apartamentos e suítes com diferenças sutis entre eles.
Fiquei em uma suíte de esquina, com janelas para os dois lados e a luz natural brilhando por ali todo o dia. Em tons neutros, o sofá e a poltrona de leitura criam um ambiente tranquilo, e os quadros que exaltam a cultura baiana decoram as paredes em lilás suave, cor típica da paleta art déco. As cortinas claras até o chão não escondem as janelas de madeiras – as mesmas que saltam na fachada do hotel.




Até mesmo o banheiro tinha uma história. “Foi nessa banheira que Caetano Veloso gravou o clipe É Proibido Carnaval, junto com a cantora Daniela Mercury”, me contou um funcionário. Mais uma memória que merece ser lembrada e recontada no Fera Palace.


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