Uma escapada do Caminho de Santiago terminou com trabalho na vindima entre vinhedos e barricas de Benjamín Romeo, um dos grandes nomes do vinho espanhol


“Nossa, que nome mais singular, acho que eu conheci esse cara”. Talvez esse tenha sido meu primeiro pensamento quando li que Benjamín Romeo havia morrido na semana passada, aos 61 anos. Na sequência, palavras como “Rioja”, “enólogo” e “Bodega Contador” cristalizaram na memória a imagem do sujeito bonachão, de boina xadrez e traços largos. Estávamos no meio de um vinhedo.
Hoje sei muito bem de quem se trata e também por que Romeo se tornou um dos grandes nomes na transformação do vinho da Rioja. As safras 2004 e 2005 do Contador, principal rótulo de sua bodega, alcançaram os então almejadíssimos e raros 100 pontos do crítico Robert Parker. Quando o conheci não fazia ideia do tamanho do personagem a quem despretensiosamente disparei uma rajada de perguntas, afinal estava na Espanha para produzir uma reportagem sobre o Caminho de Santiago para o caderno Viagem, do Estadão.
Era 29 de setembro de 2015 e quem me precisou a data foram os metadados das fotos que ilustram essa matéria. A partir disso busquei meu bloco de notas e meu diário para tentar voltar o máximo possível àquele dia excepcional. No mais puro sentido de exceção, já que não estava numa viagem enológica por vinícolas, mas no meu nono dia como peregrino no Caminho de Santiago.
Após 180 quilômetros andados, meu cotidiano era cuidar das bolhas, do cajado de madeira de castanheira e me proteger do sol brabo durante oito a dez horas diárias de caminhada.


A Rioja me deu as boas-vindas de uma forma saborosa de recordar. “Um mar de vinhedos carregados de tempranillo, um sonho”, registrei em meu diário. E logo depois, “um viticultor espremeu um cacho em suas mãos, a mostrar a beleza e o poder daquela safra”. Nos dias seguintes, fartura ao alcance das mãos em meio a pés de uva, figos, nozes, castanhas e amoras.
Nosso primeiro dia de descanso e aceitei a sugestão do amigo Acácio Paz, que ajudava a mim e ao a produzir uma reportagem sobre o Caminho de Santiago para o caderno Viagem, do Estadão.
Eu e o fotógrafo Filipe Araújo estávamos apurando uma reportagem especial sobre o Caminho de Santiago para o caderno Viagem, do Estadão, que completava 140 anos. Aceitamos a sugestão do amigo Acácio Paz, que nos ajudava na logística e ofereceu um desvio e uma carona até San Vicente de la Soncierra, 30 quilômetros ao norte de Viloria de Rioja, onde mantém com sua esposa um tradicional albergue de peregrinos, o Acácio Y Orietta.
Embarcamos no carro de um amigo de Acácio, Ángel Campelo, e após um punhados de curvas e prosa, no vimos num outro planeta. Vinhedos carregadíssimo, tratores carregados de caixas amarelas com a marca “Contador”, e gente agachada em pontos específicos da paisagem, tesouras de poda em mãos, selecionando os cachos de uva e separando-os delicadamente. Em meio a sanduiches de mortadela e talagadas de vinho direto de uma garrafa sem rótulo, uma das equipes fazia uma pausa, sentados sobre algumas das tais caixas plásticas.


“As melhores uvas vêm de terras pobres”, me contou Benjamín Romeo. Quem me prova é minha própria caligrafia, um tanto garranchada, no bloco de notas de folhas quadriculadas. Apanhou um dos alicates e logo passou a me mostrar como poderíamos ajudar na chamada vindima. Devo ter enchido apenas uma caixa, mas lembro dele corrigindo alguns pontos de corte, minucioso. “Essas três semanas são como o dia do desfile de uma escola de samba. É o ano inteiro se preparando para isso”, registrei no bloquinho.
Hoje vejo junto destas aspas uma saraivada de números: 42 hectares de parreirais, 150 mil garrafas no total, sendo apenas 5 mil de “Contador”, 0,7 litros de suco para cada quilo de uva colhido… Em meio às cores delicadas do começo de outono naquele vinhedo da Rioja, tinha ciência da aula, mas nenhuma ideia das credenciais do professor.


Dentro das instalações da bodega, acompanhei o processamento daquela montanha de uvas tintas, com seu suco escorrendo em brilhantes superfícies de inox. Senti que ali não poderia me envolver e tampouco fui convidado a participar. Mais adiante, na companhia da enóloga Allende Pérez Medrano imergi nos processos de fermentação nos tanques de inox e na penumbra da belíssima sala barricas de carvalho francês.
Logo percebi que a obsessão pela seleção não terminava na poda. Depois de uma nova triagem, as uvas eram selecionadas separadamente antes de seguirem para pequenos lotes. Romeo cuidava analisava dezenas de parcelas espalhadas pela região, focado nas características de cada uma delas. Borras, barricas novas, luas minguantes e uma profusão de detalhes ainda moram no meu bloco e hoje percebo que me esforçava muito mais para anotar do que para compreender.


Confesso: o esforço continuou diante das taças. Provei ao menos o Predicador Blanco 2014 e o tinto 2013 e me empenhei em registrar castas, acidez, madeira, frutas brancas, aromas florais e notas balsâmicas. Olha, onze anos depois, boa parte daquela descrição me parece quase escrita por outra pessoa. Meu diário, felizmente, oferece uma síntese bem menos pretensiosa daquela degustação: “tomei uns baita vinhos”.
O vinho não encerrou a escapada. No restaurante La Vistilla, debruçado sobre a paisagem de San Vicente de la Sonsierra, comi o que registrei naquela mesma noite como “a melhor bochecha de boi da vida”. Quando finalmente escrevi a reportagem para o Estadão, toda aquela sucessão de acontecimentos coube numa frase: “O dia na ‘vinícola Predicador’, com direito a visita aos campos e até ajudar na vindima, foi inesquecível”. Eu sabia, portanto, que aquele tinha sido um dia especial. Só não sabia ainda o quanto.
Naquelas páginas escritas ao fim de oito ou dez horas diárias de caminhada, vinho e Caminho já começavam a se misturar. Escrevi que a rota tinha “cheiro de uva, tempranillo, figos, nozes e castanhas”, além das amoras que cresciam junto às pedras e das maçãs frescas encontradas pelo percurso. O corpo também estava ali: as bolhas, os calos deixados pelo cajado, o sol sobre a pele e “o calor que me dá o vinho no rosto”. Talvez empolgado pela vindima, arrisquei uma frase que hoje jamais lembraria sem o diário: “A vindima de ideias há de encher barricas e tonéis de carvalho”.


Naquela noite, de volta ao Caminho, chorei pela primeira vez diante de outros peregrinos. Depois de quase 180 quilômetros, ainda não sabia explicar direito por que tinha decidido caminhar até Santiago. O curioso é que o dia em que algumas respostas começaram a se insinuar foi justamente aquele em que não caminhei um quilômetro sequer. O descanso fez bem às pernas, registrei. O restante de mim parecia ter voltado ainda mais inquieto.
Foi somente agora, depois da morte de Romeo, que voltei também à reportagem publicada em 2015 e encontrei uma pequena injustiça involuntária. Chamei a Bodega Contador de “vinícola Predicador”, confundindo o nome de um dos vinhos que havia provado com o da própria casa. O erro hoje me diverte e constrange um pouco, mas talvez seja a melhor medida da distância que percorri desde então. Eu tinha passado uma tarde com um dos enólogos mais celebrados da Espanha, trabalhado por alguns minutos em sua vindima, provado seus vinhos e enchido páginas de anotações. Só me faltava repertório para entender completamente o privilégio que tinha acabado de viver.
Na manhã seguinte, acordei sem dor e voltei ao Caminho antes do amanhecer. Saí de Santo Domingo de la Calzada sob uma lua cheia, ouvindo apenas meus passos, até perceber que já não encontrava as setas amarelas que indicavam a direção. Passei um bom tempo procurando o rumo até avistar outros peregrinos com lanternas. Durante cerca de uma hora e meia, segui um coreano que caminhava à minha frente e de quem, no escuro, eu praticamente só conseguia distinguir a pequena concha branca presa à mochila. Ela me serviu de norte até que ele desapareceu em Grañón. Continuei andando.

