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Boston: nobreza made in USA

Boston: nobreza made in USA

A cidade que combina aristocracia, história, arquitetura de encher os olhos e muita juventude nas ruas é uma opção deliciosa de passeio nos Estados Unidos

Por Flávia Pegorin

Pelas alamedas repletas de cerejeiras e carvalhos, um casal de idosos passeia cheio de orgulho, bem ao lado de barulhentos garotões com jeitão hipster e estudantes que fazem do gramado sua biblioteca. Essa é uma cena diária do Boston Common, o mais antigo parque urbano dos Estados Unidos, onde figuras históricas e pessoas anônimas perambulam desde 1634. Ele é a síntese da pequena e notável Boston, cidade-símbolo da riqueza norte-americana, terra da família Kennedy, ícone da excelência acadêmica do país e também da liberdade – ali foi tramada boa parte da Revolução Americana.

Revolução que continua até hoje, mesmo que seja em outros campos, como na ciência, nos esportes, na política e na cultura. Um passeio por essa cidade distante 350 quilômetros de Nova York revela uma face incomum dos Estados Unidos, com ares europeus e índole aristocrática, algo que se reflete não só no comportamento do povo, mas na arquitetura vitoriana – aquela que se perdeu ao longo do tempo em outras metrópoles. Aqui, ela é viva e dá um show, mesclada aos arroubos modernistas dos edifícios envidraçados do centro.

Para reviver o passado

Boston foi fundada em 1630 e seus habitantes adoram preservar e relembrar os fatos marcantes que a envolveram nesses 382 anos. Mesmo que você não seja lá muito fã de História, eles dão um jeito de tornar os acontecimentos do passado interessantes para os turistas – por exemplo, quando narram o Tea Party, de 1773, um protesto contra os colonizadores britânicos, em que os locais arremessaram ao mar toda uma carga de chá, para mostrar quem mandava ali. Essa insubordinação foi o estopim da Revolução Americana, que trouxe a independência ao país. Por isso, prepare-se para ver referências a isso em tudo: na arquitetura, nas artes, em monumentos e museus. Cada canto tem sua história.

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O melhor é que dá para desvendar quase tudo caminhando – é uma cidade relativamente pequena, com apenas 625 mil habitantes. Cercada de água, cresceu numa península entre a Baía de Massachusetts e o Rio Charles. Você pode iniciar sua jornada pelo North End, célebre pela Old North Church, igreja onde o sacristão Robert Newman, em 1775, acendeu duas lanternas para avisar que o exército inglês chegava pelo mar – episódio que marcou o início da guerra de independência.

Ali pertinho, pode-se visitar a casa de Paul Revere, um dos maiores símbolos do patriotismo norte-americano. Revere era um pacato ourives durante o dia, mas, à noite, virava mensageiro dos revolucionários. Perfeitamente preservada, sua casa é um impressionante exemplo de arquitetura colonial britânica. E, dentro, uma exposição interativa narra suas aventuras cavalgando por toda a região, fugindo dos soldados ingleses e distribuindo informações cruciais para os que se insurgiam contra a Inglaterra.

São tantos lugares assim que foi criada a Freedom Trail – a Trilha da Liberdade, uma rota turística que percorre cerca de 4 quilômetros, onde se podem visitar 16 marcos históricos, entre monumentos, prédios e ruas famosas. A Trilha começa no Boston Common, o parque central da cidade, e termina no navio USS Constitution, em Charleston, já do outro lado do Rio Charles. Esse, por sinal, é um dos pontos altos. O Constitution é um sobrevivente de cinco guerras. Começou a navegar em 1794 e rodou o mundo, combatendo no Mediterrâneo, na América Central e, claro, nos próprios Estados Unidos. Tudo devidamente documentado em seu interior, já que ele virou um museu flutuante.

Dá para fazer a Freedom Trail por conta própria, mas ela fica bem mais interessante nos tours organizados, com guias trajados a caráter e falando com sotaque de antigamente. Eles podem ser agendados pelo site da Freedom Trail Foundation por cerca de US$ 11. E não pense que a cidade parou no tempo. Ela vive se reinventando. Uma das boas novas é o Boston Tea Party Ships & Museum, um museu recém-aberto (na verdade, foi ampliado e remodelado) na região portuária. Ele atrai visitantes devido às duas réplicas de navios, o Eleanor e o Beaver. E uma terceira embarcação, o Darthmouth, será apresentada agora em 2013. Na área fica também o Museu de Belas Artes, com quase 150 anos e uma ótima coleção de artefatos egípcios e pinturas impressionistas – além, claro, de um completíssimo acervo de arte americana.

Huntington Avenue (Foto: shutterstock.com)

Huntington Avenue (Foto: shutterstock.com)

Para curtir o presente

Cansou de história? Pois saiba que passear pelo centro de Boston é bastante agradável, mesmo que apenas para relaxar e curtir os belos cenários – como no bairro de Beacon Hill, com suas casas centenárias de tijolinhos vermelhos. Nessa cidade pra lá de chique, aliás, dá para fazer boas compras. A dica é bater perna no Fauneill Hall Marketplace, um shopping localizado em um prédio de 1742, mas com as lojas mais badaladas de hoje em dia. Há desde marcas globalizadas, como Victoria’s Secret, até outras exclusivas de Boston, como a chiquérrima L’Attitude Boston Boutique.

Os fãs de TV também têm vez. Na Beacon Street fica o bar Cheers, que nos anos 1980 inspirou a famosa série cômica de mesmo nome. Ele ganhou tanta notoriedade que passou a ser mencionado em outros programas de televisão, inclusive o sucesso Friends. Imperdível uma passadinha lá para petiscar e tomar um drinque no balcão celebrizado na telinha. O mais interessante é a sensação de estar sempre cercado de natureza nessa cidade onde a qualidade de vida é uma das maiores dos Estados Unidos. A paisagem fica ainda mais inspiradora no outono, de setembro a dezembro. As árvores se destacam com todos os tons de laranja e vermelho – até perderem cada folha.

Outra boa forma de se encontrar com a natureza é ir ao New England Aquarium, no píer central de Boston. O aquário tem mais de 12 mil animais, entre peixes, focas, tartarugas marinhas e tubarões que fazem a festa da molecada. Ao lado há um teatro IMAX onde é possível assistir a filmes em 3D com a temática do fundo do mar. Para um passeio mais adulto, o Isabella Stewart Gardner é um museu muito bonito e intimista, inaugurado no início do século 20, que abriga uma ótima coleção de obras de artistas como Botticelli, Rembrandt e Degas.

Fica bem perto de outro ponto imperdível de Boston onde, alguns diriam, vive outra obra-prima local: o Fenway Park, estádio de beisebol do Boston Red Sox. A bela construção em estilo decô existe desde 1912 e é o mais antigo estádio do país ainda em uso. Como o Red Sox tem a torcida mais fanática do país, a aura de amor ao time é capaz de deixar admirados até nós, brasileiros, que não somos lá muito fãs dos tacos. Há visitas guiadas que mostram os bastidores e contam as lendas desse esporte – tão tradicional nos Estados Unidos quanto a torta de maçã. Prepare-se para ouvir a épica narrativa sobre os 86 anos em que o time ficou sem vencer um campeonato sequer, resultado da chamada “Maldição do Bambino” – uma praga supostamente rogada contra a equipe pelo “Pelé” do beisebol, o jogador Babe Ruth.

Gilette Stadium, casa dos Patriots (Foto: shutterstock.com)

Gilette Stadium, casa dos Patriots (Foto: shutterstock.com)

Os esportes, por sinal, são algo que define a cidade, já que ela tem três dos mais celebrados times dos Estados Unidos: os Red Sox (beisebol), os Celtics (basquete) e os Patriots (futebol americano). Se não quiser enfrentar as filas nos estádios, tudo bem: o povo se une para assistir partidas nos pubs – uma experiência que vale muito a pena. É importante dizer que Boston leva a sério sua relação com os pubs – e com a comida e a bebida. A influência trazida pela imigração irlandesa do século 19 se mostra aí, com a cerveja sendo estrela principal. Provar uma Samuel Adams, um clássico da cervejaria local, é quase obrigação.

Para drinques mais elegantes, há um ponto de parada de tirar o fôlego: o Top of the Hub fica no alto de um edifício no bairro de Back Bay e serve um menu requintado no almoço e jantar (além do brunch). Mas apenas apreciar um vinho e a vista já vale a visita. Por falar nisso, e a gastronomia? Nessa região tradicionalmente pesqueira, é obrigatório experimentar a sopa de frutos do mar que é a cara de Boston, o clam chowder. O sabor das lagostas, dizem, é ainda melhor no Legal Sea Foods, rede com uma dúzia de casas pela cidade. Ou no restaurante Mr. Dooley’s Tavern (no Financial District).

Para vislumbrar o futuro

O pé fincado no passado é uma característica de Boston. Mas a cidade tem também seu lado progressista, onde a tecnologia e a ciência dão o tom. São nada menos do que dez universidades de ótima reputação. Duas delas figuram entre as melhores do mundo – Harvard, que dispensa apresentações, e o MIT, Massachusetts Institute of Technology, talvez a mais respeitada universidade do planeta na área de ciências exatas.

Isso faz os moradores da região se orgulharem e atrai uma vasta comunidade de estudantes, pesquisadores, cientistas… e turistas!  Sim, porque para quem está a passeio, visitar o campus de Harvard, por exemplo, é surpreendentemente interessante. Afinal, lá estudaram figuras do naipe de John Kennedy, Barack Obama e Mark Zuckerberg.

O campus fica no distrito vizinho de Cambridge. Sua área é aberta aos não estudantes – incluindo restaurantes, bibliotecas, livrarias, lojinhas e até auditórios, onde se pode ver palestras sem pagar nada. Os próprios alunos organizam uma visita guiada, a Harvard Tour. Tudo de forma divertida, descontraída e gratuita – no final, basta dar uma gorjeta de cerca de US$ 10 ao guia bem educado (literalmente). O MIT também fica em Cambridge, e seus prédios ultramodernos merecem uma passadinha. Especialmente o MIT Museum, onde as exposições científicas encantam a todos. Em abril começa uma mostra sobre “os gênios do dia a dia” – ou seja, uma exibição de invenções às quais ninguém dá muita importância, mas que são absolutamente essenciais no nosso cotidiano.

Alguns exemplos: o zíper, o saquinho de chá e o parafuso. Na ligação entre Boston e Cambridge fica ainda o Museu de Ciências – imenso e com “bônus” como os shows no planetário Charles Hayden. Ali, também é possível experimentar um passeio de segway por toda a região. Igualmente interessante é Prudential Center – o prédio mais famoso da cidade. Nos andares mais baixos funciona um shopping com lojas como Saks, Sephora, L’Occitane, Oakley e muitas outras.

E no topo fica o Observatório Skywalk. Mediante o ingresso de US$ 14, pode-se ter uma bela visão 360º da área urbana. Audioguias ficam disponíveis para quem quiser ouvir e identificar pontos de interesse na paisagem. Do Skywalk, o visitante avista aquele que é o orgulho mais recente dessa cidade tão voltada ao passado. É o Rose Kennedy Greenway, uma gigantesca faixa de gramados que se espalham ao longo de quase 2 km, em pleno centro. O oásis verde reúne fontes, monumentos, áreas de descanso e lazer, bosques e até um carrossel para alegria da criançada.

Há 20 anos, nada disso existia. O lugar era tomado por freeways congestionadas, barulhentas e desumanas. Mas um projeto de 15 bilhões de dólares transferiu os carros, ônibus e caminhões para um complexo de túneis de 6 quilômetros de extensão. Na superfície, apenas o verde. Esse projeto é considerado atualmente uma das mais revolucionárias obras urbanísticas do mundo, que valorizou o centro da cidade e favoreceu o turismo. Uma prova de que Boston não parou no passado – seu presente e futuro são igualmente admiráveis.

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