Com recorde de participação, a edição 2026 do evento em São Paulo destacou a ascensão das viagens imersivas, cheias de propósito, experiências autênticas e nenhuma pressa


Principal evento do turismo de luxo, a ILTM (International Luxury Travel Market) Latin America 2026 encerrou sua maior edição já realizada (com crescimento de cerca de 20% em relação ao ano anterior) consolidando uma das principais transformações do turismo de alto padrão global: o luxo deixa de ser apenas sinônimo de exclusividade material e passa a valorizar, cada vez mais, experiências autênticas, sustentabilidade, conexão cultural e bem-estar. Realizado entre 4 e 7 de maio, na Bienal do Ibirapuera, em São Paulo, o evento reuniu cerca de 1.500 participantes, incluindo 550 marcas expositoras e 550 buyers vindos de 85 cidades de 11 países latino-americanos.
Em mais de 28 mil reuniões, representantes do trade discutiram como o turismo de luxo está migrando da ostentação para a busca por significado. Guiada pelo tema Journeys That Matter (Viagens que Importam), a feira colocou no centro das discussões conceitos que vêm redefinindo o setor. “Slow travel”, “sense of place”, regeneração ambiental, conexão cultural e hospitalidade com propósito, por exemplo, entraram em pauta.
“Quando estamos verdadeiramente presentes, criamos vínculos e, onde há conexão, há transformação. Identidades são afirmadas, culturas são valorizadas e a natureza é respeitada não como pano de fundo, mas como parte essencial da história. É a partir desse olhar que a ILTM Latin America 2026 celebra as jornadas que realmente importam, criando conexões capazes de moldar um futuro baseado em pertencimento, respeito e valor compartilhado”, diz Simon Mayle, diretor da ILTM Latin America e North America.


Brasil em ascensão
O movimento acompanha uma mudança estrutural no comportamento do consumidor premium. Segundo dados da Euromonitor, o Brasil já ocupa a posição de segundo maior mercado de turismo de luxo da América Latina e o nono do mundo, com expectativa de crescimento de 31% até 2030.
Mais do que ampliar o mercado, esse avanço revela uma nova percepção de valor: o viajante contemporâneo quer tempo, autenticidade e experiências emocionalmente relevantes. “Não é mais sobre o tamanho do apartamento ou a beleza da piscina. É sobre o que a gente faz o cliente sentir”, explica Gilson Gratão, sócio-diretor da GAV Resorts.
Nesse contexto, experiências ligadas ao bem-estar, à natureza, à gastronomia local e ao contato humano ganham protagonismo. E o “slow travel” ganha força.
Em vez da lógica acelerada do turismo de checklist — marcado pelo acúmulo de destinos e experiências superficiais —, cresce entre os viajantes de alta renda o desejo por jornadas mais lentas, com estadias prolongadas, menor número de deslocamentos e maior imersão cultural, capazes de criar vínculos genuínos com as comunidades e seus modos de vida.
Sense of place
Outro conceito amplamente debatido foi o “sense of place”, expressão usada para definir experiências profundamente ligadas à identidade local.
Em oposição à padronização que marcou parte da hotelaria internacional nas últimas décadas, cresce o interesse por hotéis, roteiros e experiências capazes de traduzir a cultura, a gastronomia, a arquitetura e os saberes tradicionais de cada destino.
A própria ambientação da ILTM buscou reforçar essa proposta. A edição deste ano foi concebida como uma experiência sensorial latino-americana, com referências culturais, gastronômicas e afetivas da região.


Sustentabilidade
Além dos negócios, a feira ampliou o debate sobre impacto social e regeneração ambiental, apresentando 19 projetos ligados à sustentabilidade, educação, conservação e desenvolvimento comunitário apoiados por seus expositores.
Um dos destaques foi a parceria com a Casa do Rio, organização que atua no município de Careiro, no Amazonas. A iniciativa prevê a criação de um hotel-escola e de uma cozinha-escola voltados à formação de jovens e comunidades locais em hospitalidade, gastronomia e turismo de experiência.
A ideia é que o turismo colabore para ampliar acesso, gerar renda e criar novas possibilidades de futuro, atuando como ferramenta de transformação. Em Lisboa, por exemplo, o Four Seasons Hotel Ritz redistribui excedentes alimentares para comunidades em situação de vulnerabilidade. Já no Rio Grande do Norte, o Hello Pipa Collective constrói um ecossistema que conecta educação, agricultura regenerativa e empreendedorismo apoiado pelo Filha da Lua.
Em escala global, o Virtuoso Impact Summit reúne líderes do setor para discutir caminhos mais responsáveis para o turismo de luxo. Juntos, esses projetos mostram que viajar também pode ser uma forma de investir em pessoas e territórios.


Consciência ambiental
O turismo regenerativo também apareceu em iniciativas como as do Janeiro Hotel, que apoia projetos de recuperação da vegetação nativa da restinga carioca. Já o Juma Amazon Lodge, cuja operação utiliza energia solar e práticas de baixo impacto ambiental na Amazônia.
No cenário internacional, projetos apresentados por marcas como Aqua Expeditions, &Beyond e Natural Selection Safaris reforçaram o avanço de um turismo de luxo mais comprometido com a conservação ambiental e regeneração de territórios. Outro destaque é o programa Swisstainable, que reúne milhares de empresas comprometidas com práticas sustentáveis e viagens responsáveis na Suíça.


Ancestralidade no radar
A valorização da ancestralidade e das experiências culturais também ganhou protagonismo. Projetos como o GUDAO, da WildChina, e roteiros desenvolvidos pela A La Carte Travel mostram como o viajante contemporâneo busca cada vez mais experiências conectadas às tradições locais, ao artesanato, à gastronomia regional e às histórias dos territórios.
Ao apresentar esses projetos, a feira amplia seu papel para além da rodada de negócios, posicionando-se como uma plataforma de reflexão e transformação da indústria. “É um convite para uma conversa mais profunda sobre o turismo de luxo como um agente ativo de mudança, capaz de gerar valor não apenas econômico, mas também social, cultural e ambiental. Os agentes saem com ideias que vão gerar encantamento para seus clientes e as marcas se inspiram a gerar mais impacto”, ressalta Simon Mayle, diretor da ILTM Latin America e ILTM North America.
Próximas edições
Ainda neste ano, a ILTM passará por Singapura (entre 29 de junho e 2 de julho), Bahamas (28 de setembro a 1º de outubro) e Cannes (30 de novembro a 3 de dezembro).
A próxima edição em São Paulo já tem data confirmada: de 3 a 6 de maio de 2027, novamente na Bienal.