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Cidade Maravilhosa: quatro dias de diversão no RJ

Cidade Maravilhosa: quatro dias de diversão no RJ

Três amigas embarcam rumo à Cidade Maravilhosa com uma única missão: “deixa a vida me levar”

Por Redação

Passagem comprada, não tinha mais volta. Aí vieram as pessoas que, sabendo da viagem, disseram de tudo. “Mas férias sem marido e sem as filhas, que estranho”, disse um. “Olha que o Rio de Janeiro está um perigo”, disseram muitos outros. “Quer companhia?”, disseram duas das melhores pessoas que alguém pode conhecer. Amigas daquele tipo – do tipo que a gente pergunta “vamos?” e elas respondem “vamos!” sem piscar. Viagem com gente animada e mente aberta: era tudo o que minha fuga para o Rio precisava para ficar completa.

A ideia veio em um dia “daqueles”. Daqueles que até as crianças olham para a mãe e dizem, alto e bom lamento, “você tá com cara de cansada”. Decidi que precisava de um tempo. Mas não miniférias em família: umas só minhas, para lembrar como é ter um dia todo de curtição sem precisar levar ninguém ao banheiro, fazer um prato saudável ou dormir cedo para acordar bem cedo. Só eu. Eu, gente bacana e o calor carioca que reina sereno mesmo no quase-inverno.

Escolhi o Rio de Janeiro por muitos motivos, mas, em boa parte porque, como muitos dos meus conterrâneos, até hoje eu fui até lá mais a trabalho do que a passeio (sofrem demais as pessoas que olham a praia pela janela do carro, vestem roupa social e pensam “onde foi que eu errei?”). Passeio, por sinal, é o que mais tem no Rio. Foi começar as pesquisas da viagem para logo acender aquela chama descrita por Vinicius de Moraes. Não viraria amor, eu imaginei; mas que fosse infinito enquanto durasse. Três, quatro dias de paixão bastavam.

Roteiro feito, garotas a postos. Elas se chamam Priscila e Giselli, aliás. E não são amigas de longa data, mas de ano e meio, dois. Muitos talvez precisassem de mais credenciais; pra mim, bastou ver a empolgação delas com a ideia. Porque tem momento na vida em que a gente não pode pensar demais em viajar: tem apenas que ir. Elas queriam ir. E nós fomos.

Dia 1: entre Copacabana e Santa Teresa

Eu fui primeiro, na verdade, louca para desbravar pelo menos uma noite em cama boa de hotel – aquela em que a gente se espalha lindamente até a hora do café da manhã farto; no meu caso, isso aconteceu no Sofitel em frente ao Forte de Copacabana. Passei a manhã de quinta-feira na praia, encarando o calçadão emblemático e o doce mar azul esverdeado da Princesinha do Mar. Copacabana permite isso: é só acomodar na areia fofa, observar as pessoas e decidir entre o biscoito Globo e o mate de latão (e ficar com ambos). Os quiosques da orla também são providenciais para uma porção de lulas ou peixe e a cerveja gelada que combina com a vista. Fazia 30 graus e eram 15h quando lembrei de tomar o rumo de Santa Teresa, o bairro boêmio e descolado que seria base da nossa “Grande Aventura de Garotas”.

Santa Teresa recebe muitos turistas em busca de um Rio de Janeiro mais alternativo. Lá, os hotéis de cadeia, como os da orla, não têm vez. São muitos hostels e casas de charme um pouco mais em conta que na praia (desde que não se opte por hotéis-butique, que também existem e sabem cobrar o preço pela exclusividade e o massagista sempre a postos).

Escolhemos o adorável Casa Amarelo, instalado em um casarão de 1904, com sete suítes, localizado em uma das ladeiras de Santa Teresa – onde, breve, devem voltar a passar os bondes. Não há prazo exato para o retorno – no momento, estão todos penhorados: a burocracia está correndo e os trilhos estão em obras – e isso complica um pouco a circulação de carros, fazendo um ou outro taxista repensar a corrida. Mas não chega a atrapalhar (até porque, aplicativos para pedir táxis funcionam magnificamente e a oferta de motoristas é grande). Além disso, o som dos passarinhos nas árvores e a música suave de uma casa ou outra compensam tudo. Até a distância de 10 quilômetros do mar.

Naquela noite, encontrei o ponto crucial para o sucesso de uma viagem ao Rio: um informante. Tenho um grande amigo que mora na cidade há quatro anos (e não, eu não posso emprestar meu amigo pra vocês mas, bem, espero que essas linhas estejam amigavelmente cumprindo o papel). Gentil, ele me levou para conhecer uma joia da coroa carioca: fez-se a Adega Pérola. Boteco pequenino, com mais de 50 anos de existência no miolo de Copacabana, o lugar é o melhor balcão de petiscos do Rio de Janeiro. Não da cidade, do Estado. Do Brasil, vai. Porções de toda sorte, de escabeche até bacalhau e alho no azeite, culminando no delicioso polvo vinagrete, estendem-se por uns quatro metros de delícias. É escolher, pedir um chope para acompanhar, fincar posição nas mesinhas partilhadas e passar umas horas de carioquice.

Dia 2: programas culturais no centro e noite na Lapa

O centro está meio bagunçado também, mas nada impediu que, na manhã de sexta, nosso trio, agora reunido, fosse desbravar as ruelas de paralelepípedos e a vida cultural do Rio de Janeiro. Foram paradas idílicas para quem gosta de uma boa história (coisa que o Rio, segunda capital do Brasil, tem de sobra). Passamos, de início, pelo Real Gabinete Português de Leitura, inaugurado em 1887, cuja fachada foi inspirada no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, e o interior guarda milhares de obras literárias luso-brasileiras (formando uma imagem eterna na mente dos amantes dos livros).

Dali para a Confeitaria Colombo, célebre paradinha para um quitute com café no centro do Rio – e, em um prédio nascido com a estética da Belle Époque e depois reformado em Art Noveau, o canoli de banana e o mil-folhas repartidos por nós no balcão ficaram muito mais doces.

Seguimos então pela estreita Rua do Ouvidor, um túnel do tempo que leva a pensar no Rio de Janeiro do século 19; mas modernizamos a coisa em dois momentos: primeiro com uma parada na Farm, loja de roupas nascida na cidade e que ganhou fama nacional apostando no colorido chique-praiano (desculpe, mas estas moças aqui precisam ver umas araras e comprar um biquíni novo às vezes); depois, houve a visita à Folha Seca, pequena livraria onde se encontra, em especial, só o filé dos volumes sobre futebol e samba (desculpe, mas estas moças também amam ambos, principalmente aqueles feitos com o coração). Por falar em filé… almoço?

O nosso foi no Rio Minho. Tente entrar ali e não se sentir numa casa lisboeta de meados do século… E depois tente não cair de amor pelos bolinhos de bacalhau mais sequinhos do mundo acompanhados de uma cerveja. Foi um bom reabastecimento de energia para seguirmos rumo a outro trio, o de centros culturais.

Vizinhos, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Centro Cultural dos Correios e a Casa França-Brasil têm sempre exposições interessantes em cartaz. Tanta arte, beleza e poesia convergiram, logo depois, em um único local: seguimos do centro para o Bar Urca, o pôr do sol mais bonito para o fechamento daquela tarde. O Urca em si é apenas um bar miúdo localizado na esquina da Rua Cândido Gafree com a Avenida João Luis Alves, que margeia a Baía da Guanabara. Depois de apanhar a caipirinha, é se aboletar na mureta onde dezenas de outros sortudos ficam papeando, observando os barcos e esperando o sol deitar suave atrás das montanhas. É mágico. Mesmo.

E a magia se espalhou tanto pelo organismo que me fez, inclusive, aceitar o convite das meninas e arriscar levar meus dois pés esquerdos a um templo da música e da alegria carioca. O Rio Scenarium existe desde 2001 – e, de seu imenso casarão na Lapa, ecoa uma vibração tão contagiante que, em questão de duas cervejas, estamos na pista seguindo a cantoria da massa. A massa, por sinal, é democrática: tem gente de todo o Brasil e do mundo. Os gringos mais cariocas que já vimos. Fui embora com saudade de gente que eu nem conheço.

Dia 3: praia no Leblon

Depois da sexta-feira que rendeu como dez dias de turismo, o sábado ficou para estender três cangas na praia do Leblon e curtir o mormaço saboroso. Entre o posto 11 e o posto 12, fomos gentilmente acolhidas pela Socorro e o Dudu da barraca 160 (são numeradas as tendas para pedir cadeiras, guarda-sol ou bebidinhas, o que facilita ao marcar encontro). Fomos acolhidas também, depois de algumas horas, no Chico & Alaíde, instituição do Leblon.

Desde 2009, os dois amigos, que antes trabalhavam no célebre Bracarense, uniram-se na Rua Dias Ferreira, 679, para comandar um espetáculo da comida de boteco. Nossa trupe fez bem o serviço e agora recomenda: largue suas tralhas de praia no canto da mesa e peça logo um chope e um choquinho (um camarão grande empanado com massa e catupiry e rolado em uma camada obscena de batata palha). Ah! Exerça sua carioquice e encare também a rabada com polenta.

Recuperar dessa comilança, só na base da soneca. Mas ainda tinha a noite – e aí nós, garotas, jogamos todas as fichas na mesa. Decidimos pelo Aprazível, restaurante encarapitado no alto de Santa Teresa que sabe oferecer um cardápio sofisticado, mas sabe muito, muito mais oferecer a vista noturna mais charmosa do Rio. Dormimos sem fichas no bolso, dada a salmoura da conta, mas extremamente felizes. Ainda tinha a saideira, afinal.

Dia 4: Parque Lage ou Jardim Botânico?

O dia quentíssimo fazia lembrar os meses de verão bravo – aqueles que, nos disseram, chegam a bater fácil os 40 graus e provocam desmaios nada românticos até nas moças cariocas (o que faria essa fornalha com três paulistas, eu fiquei imaginando…). Como refresco, nossa escolha foi conhecer o Parque Lage.

O Jardim Botânico, vizinho mais famoso no bairro, poderia ser a opção da maioria dos turistas, mas o Parque Lage tem um quê mais nativo. Tem também as palmeiras imperiais que caracterizam os dois espaços, mas ali elas estão menos “ensaiadas” em suas posições, dando um visual mais relaxado e combinado com a descontração dessa cidade. E tem ainda a vista direta para o Cristo Redentor (nem cogitamos ir até o Corcovado, mas que mal faz apreciar lá de baixo, sem prece e sem pressa, o símbolo do Rio?).

Verde desbravado, fotos por todos os lados… mas o calor estava mesmo forte. Era hora de aplacá-lo na base do boteco (somos gastronomicamente monotemáticas ou essa cidade casa realmente com petiscos e bebidinhas?). De táxi, rasgamos caminho até o Leblon para estacionar na porta do Belmonte, um polo magnético pra quem, como eu, venera uma boa empadinha.

Não foi em vão: camarão com um belo chapéu de catupiry, palmito em massa levíssima, a caipirinha de caju; tudo isso, mais a brisa gostosa que batia pela ausência de janelas fez melhor a despedida. Brindei com um nó na garganta pensando no voo da volta, prestes a partir. Depois aquietei, lembrando que o Rio fica ali, 40 singelos minutos de distância, e que Giselli e Priscila são amigas para sempre (a ponto de termos cantado e dançado pelas ruas, criando um set list cafona e muito engraçado). “Rio de novo daqui uns meses. Vamos?”, alguém disse. Sempre, meninas.

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