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Porto: muito além do vinho

Porto: muito além do vinho

A bebida que deu fama à cidade portuguesa não é o único motivo para visitá-la. Baixos preços, boa gastronomia, história e praias a tornam um destino imperdível

Por Heloísa Fávaro

Na fronteira entre Espanha e Portugal, o Rio Duero se torna Douro. As águas percorrem vales sinuosos, repletos de plantações de uva. Finalmente, misturam-se com o Oceano Atlântico. É nessa foz, no noroeste do país, que impera Porto, a segunda maior cidade portuguesa. Sua posição estratégica tornou-a próspera e importante na rota do Mercantilismo. Agora, é nos roteiros turísticos que Porto se destaca. Um turismo a baixo custo, vale dizer, a ponto de ter sido classificada pelo jornal americano New York Times como “uma das maiores pechinchas da Europa Ocidental”.

Em um primeiro momento, pensar em Porto é pensar em vinho – doce, aromático e encorpado. Criada nessa região de Portugal inicialmente para agradar o paladar dos ingleses, a bebida acabou ganhando o mundo. Mas a cidade é mais que vinhedos e garrafas. Seus principais tesouros podem ser vistos no bairro da Ribeira, tombado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Palácio da Bolsa (Foto: shutterstock.com)Palácio da Bolsa (Foto: shutterstock.com)

Por onde começar? Bem, um passeio pela Ribeira tem que incluir o Palácio da Bolsa. Então inicie sua jornada por ele. Goste-se ou não de arte, é impossível não se admirar com esse prédio neoclássico do século 19, que tem como destaque o Salão Árabe, com o que há de mais rico na arte neomourisca em Portugal.

Em tempo: esqueça o carro. A cidade pode facilmente ser explorada a pé. Nada mais agradável que caminhar pela larga Avenida dos Aliados, por exemplo. Ali perto, existem dois pontos de compras bem próximos. O principal é o mercado do Bolhão, um prédio neoclássico que reúne mercearias, peixarias e floristas. Virando a esquina, está a rua Santa Catarina, repleta de lojinhas. Deixe-se encantar pelos azulejos portugueses da Capela das Almas, que representam a vida de São Francisco de Assis e da própria Santa Catarina em um mosaico de 360 metros quadrados.

Quase no fim da rua, o point ideal para recarregar as energias é o Majestic, um emblemático café fundado nos anos 1920. O interior revela influências da Art Nouveau francesa, dos espelhos aos lustres. Depois, o passeio continua até a centenária Estação Ferroviária São Bento, onde um soberbo painel de azulejos com 500 metros quadrados retrata a conquista do território de Ceuta pelo Infante Dom Henrique, personagem histórico de Porto e patrono dos descobrimentos portugueses.

A cidade nas alturas

Impossível não se admirar com a Torre dos Clérigos, a apenas 400 metros da Estação Ferroviária São Bento. Do alto, ela proporciona uma das mais belas vistas da cidade. É só chegar lá em cima para esquecer a dor nas panturrilhas (são 225 degraus!) e ser hipnotizado pela paisagem romântica do centro antigo, com o rio ao fundo.

Dali avista-se o prédio neogótico da centenária livraria Lello. Tanto quanto os livros, chamam a atenção o imponente vitral no teto, a escadaria circular de madeira e os lustres em colunas.

Catedral da Sé (Foto: shutterstock.com)

Catedral da Sé (Foto: shutterstock.com)

E há mais ícones históricos ao alcance do olhar. A Catedral da cidade – a chamada – é um dos seus mais antigos monumentos. Erguida no século 12, ela foi reformada várias vezes ao longo dos séculos. E, por isso mesmo, apresenta elementos de design de três períodos históricos: românico, gótico e barroco. Em outras palavras, um verdadeiro “catálogo” vivo para os fãs de arquitetura.

E mesmo se você não liga muito para isso, ela pode encantá-lo: à esquerda da capela-mor, descortina-se um incrível altar todo feito de prata, construído na segunda metade do século 17 – tempo em que os portugueses ainda dominavam boa parte do mundo graças às Grandes Navegações. A preciosidade foi salva das tropas francesas de Napoleão, em 1809, graças a uma parede falsa, feita de gesso, construída apressadamente para escondê-la.

Outra que atrai muitos visitantes é a Igreja de São Francisco, construída entre 1383 e 1410. Ela é considerada o mais perfeito exemplo do uso da “talha dourada barroca”. Se esse termo lhe é estranho, saiba que se trata de algo muito comum em igrejas barrocas brasileiras: amplos painéis de madeira cuidadosamente esculpidos e depois revestidos com ouro.

Há quem considere a talha dourada tão representativa da arte portuguesa quanto os azulejos. Na Igreja de São Francisco, é comum os turistas se deterem por minutos e mais minutos observando o Retábulo-Mor, melhor exemplo dessa técnica em Portugal, no qual está esculpida uma representação da Árvore de Jessé (o diagrama da genealogia de Jesus Cristo).

Ainda mais antiga é a Casa do Infante (também chamada de Casa da Rua da Alfândega Velha), que surgiu no cenário urbano em 1325, para ser uma alfândega.

Ela ganhou esse nome séculos depois, por ser o lugar onde nasceu o Infante Dom Henrique (sim, aquele mesmo patrono das navegações lusitanas). Na década de 1990, escavações arqueológicas em seus porões trouxeram à tona objetos do cotidiano da época do célebre monarca e de antes dele, como cerâmicas, artefatos em vidro, roupas e selos usados na liberação dos produtos que entravam em Portugal pelas docas. E mais: foram encontrados importantes testemunhos da ocupação romana na Antiguidade, destacando-se os primeiros mosaicos originários da península itálica achados nessa região do país. Tudo ali exposto, para quem quiser saber mais sobre os tempos remotos da cidade.

Hora de cair na noite

Para brindar o anoitecer, a badalada rua Cândido dos Reis, atrás da torre, é repleta de barzinhos e restaurantes. Um jantar mais requintado – e, ao mesmo tempo, tradicional – fica por conta do restaurante DOP, dentro do Palácio das Artes. Além de assinar o cardápio da casa, o premiado chef Rui Paula sempre indica um bom vinho para harmonizar com o prato escolhido. O carro-chefe são as típicas tripas à moda do Porto – prato que, segundo a lenda, surgiu no século 15, quando os moradores da cidade cederam todo seu estoque de carne para alimentar os soldados que combateram em Ceuta, restando-lhes como refeição apenas as tripas dos animais (vem daí também a alcunha de “tripeiros”, como os portuenses se autodenominam).

Outra especialidade gastronômica de Porto é a francesinha, uma versão mais recheada e picante do croque monsieur francês. Duas fatias de pão caseiro envolvem um recheio de presunto, queijo, bife, linguiça e mortadela. Por cima, queijo gratinado e um ovo frito, com gema mole. E a cereja do bolo: uma concha generosa de molho de carne com cerveja e pimenta piri-piri. Um dos lugares mais tradicionais para experimentar a iguaria portuense é o restaurante Cufra, na Avenida Boavista.

Casa da Música (Foto: shutterstock.com)

Casa da Música (Foto: shutterstock.com)

O bairro da Ribeira guarda ainda as melhores opções de hospedagem. É o caso do hotel Infante de Sagres, que já recebeu personalidades como Bob Dylan, Dalai Lama e Catherine Deneuve. Para quem quer tranquilidade à beira-mar, o lugar ideal é a Foz. Já a região da Boavista abriga alguns dos hotéis mais modernos da cidade.

Por falar em modernidade, é na Casa da Música que a cidade revela sua arquitetura contemporânea. Palco para os principais concertos da cidade, ela representa um outro lado de Porto: cosmopolita, efervescente, agitada.

O Douro e as praias

O passeio pelo Cais da Ribeira merece um dia inteiro. É a parte mais agitada do Rio Douro, com restaurantes charmosos e bares que ficam cheios dia e noite. Espremidos, os sobrados coloridos se debruçam sobre o rio e completam o cenário de cartão-postal, junto com a emblemática ponte D. Luis I, que liga

Porto à vizinha Vila Nova de Gaia.

A Praça da Ribeira, ponto de partida dos mercadores no século 14, hoje oferece cruzeiros turísticos. Por 10 euros, é possível navegar rapidamente pela costa da cidade. Com mais tempo, vale a pena fazer os passeios de um dia inteiro até cidades como Gaia e Régua, produtoras de vinho.

Do lado oposto do rio, em Vila Nova de Gaia, o visitante pode curtir outra face dessa região: as praias. Mais de dez se espalham ao norte e ao sul do Rio Douro: Matosinhos, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Canidelo… Essas são apenas algumas, e de todos os tipos: urbanas, isoladas, com ondas, tranquilas, para nudistas.

A praia de Lavadores, em Vila Nova de Gaia, estende-se por um quilômetro, com jardins e um calçadão de madeira pontuado por cafés e restaurantes. Já Salgueiros é mais rústica, caracterizada por uma grande área de vegetação natural – e, por isso mesmo, considerada uma das mais sedutoras. É perfeita para caminhadas e passeios de bicicleta. E, apesar de menos agitada, dispõe de boa estrutura para o turista, com algumas lojas, bares e quiosques que alugam cadeiras e guarda-sóis.

É difícil definir a melhor. Mas talvez a que agrade mais os brasileiros seja Espinho, a 25 quilômetros do centro do Porto. Ali são disputadas etapas dos circuitos mundiais de surfe e vôlei de praia – fato que por si só já a coloca num nível de “agito” muito próximo ao das nossas praias. Some-se a isso um aprazível calçadão e uma infraestrutura turística que inclui até cassino, e você terá um reduto de diversão perfeito para quem viaja a essa privilegiada parte do território lusitano. É só brindar com uma taça de vinho do Porto e aproveitar o cenário…

Sandeman (Foto: shutterstock.com)

Sandeman (Foto: shutterstock.com)

O vinho do Porto

Ele é intenso, mas doce. Bastante alcoólico, mas de fácil degustação. Nobre, mas acessível a todos os bolsos. Esse é o vinho do Porto, o mais famoso “filho” desta região de Portugal. Trata-se do que os especialistas chamam de ”vinho natural fortificado”. Em outras palavras, a fermentação do vinho é interrompida numa fase inicial (o que garante a doçura, já que nem todo o açúcar vira álcool) e, em seguida, é adicionada uma aguardente feita também de uvas. Mas não é só isso.

O clima e as cepas plantadas são absolutamente únicos, o que torna muito difícil fabricar a bebida em qualquer outra parte do planeta. Na verdade, boa parte do vinho do Porto é feita na região do Douro, cerca de 100 quilômetros a leste da cidade. Os municípios de Peso da Régua e Pinhão são centros de produção muito visitados e a bebida tradicionalmente fica armazenada nas caves de Vila Nova de Gaia – lugares esses que garantem um agradável passeio, com museus e vinícolas abertos aos turistas.

Sem falar no belo centro de visitação da marca Sandeman, na vila de Corgo. Quem viaja em setembro e outubro pode aproveitar para acompanhar a vindima, quando é feita a colheita da uva. O tour leva para ver a produção de perto e ainda inclui degustação. E uma curiosidade: apesar de ser um orgulho de Portugal, ele tem sua origem reivindicada pelos ingleses. Eles dizem que, no século 17, os mercadores britânicos tiveram a ideia de adicionar brandy ao vinho da região para evitar que ele azedasse enquanto era levado para as terras da Rainha. Versão que, obviamente, é contestada por nossos primos lusos.

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