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Eslováquia: o pequeno grande país

Eslováquia: o pequeno grande país

Encravada entre Áustria e Hungria, a nação do tamanho do estado do Rio de Janeiro comemora seus 20 anos de existência encantando os turistas com castelos, estações de esqui e uma capital vibrante

Por Paulo D’Amaro

Imagine um lugar do tamanho do estado do Rio de Janeiro, onde mais de 120 castelos se espalham pela paisagem, pontuando montanhas, florestas, estações de esqui, cidades milenares e uma capital super charmosa. Essa é a Eslováquia, país da Europa Central com 6 milhões de habitantes, de economia estável – que usa o euro como moeda – e agraciada por um potencial turístico ainda desconhecido dos brasileiros.

Sem motivo justo: afinal, sua capital, Bratislava, fica a apenas 60 quilômetros de Viena, na Áustria, e a duas horas de carro de Budapeste, na Hungria – dois destinos consagrados entre nossos viajantes. E por que um país tão belo e fácil de visitar não está na ponta da língua dos turistas?

Talvez a explicação esteja na sua juventude como nação – são apenas 20 anos de existência. Sim, é isso mesmo: em janeiro de 2013 completam-se duas décadas de sua fundação. Até 1993, o território era unido ao da atual República Tcheca, compondo a antiga Tchecoslováquia.

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Daí também a capital, Bratislava, ser bem menos conhecida que suas primas Viena, Praga ou Budapeste. Menos conhecida, mas nem por isso menos apaixonante. Com 500 mil habitantes, cortada pelo Rio Danúbio, a cidade é uma das melhores da Europa – e do mundo – em termos de qualidade de vida. Basta dizer que ostenta 110 metros quadrados de áreas verdes para cada habitante. Em São Paulo, por exemplo, esse número não passa de três metros quadrados.

(Foto: shutterstock.com)

(Foto: shutterstock.com)

Além disso, Bratislava foi poupada de bombardeios e batalhas nas duas guerras mundiais e, por isso, guarda preciosidades históricas e arquitetônicas. A mais famosa delas é o Castelo de Bratislava. A colina onde foi construído é habitada desde a Idade da Pedra.

A fortaleza, porém, só veio no século 9. Desse ponto, que é o mais alto da cidade, pode-se avistar até a Áustria. É o único lugar da capital onde, devido à subida íngreme, não vale a pena acessar caminhando (a menos que você seja um atleta). No resto da cidade, o gostoso é explorar a pé, mesmo tendo à disposição uma rede de ônibus e bondes moderna e pontual. Graças ao Castelo de Bratislava e a algumas outras fortificações próximas, a cidade nunca foi invadida pelo Império Turco Otomano, que durante quase cinco séculos ocupou boa parte da Europa Central.

Hoje, o castelo abriga um museu com mais de 250 mil objetos que contam a história do território eslovaco desde a Pré-História até os dias atuais. E conta com um restaurante reputado como um dos melhores do país. É o Hrad (que significa, claro, “castelo”). Curiosamente, o menu tem desde pratos sofisticados da culinária internacional – como a truta grelhada com ervas da Provença – até cheeseburgers e pizzas. Mas o que importa por ali é a vista, sobretudo à noite, quando as mesas são montadas na amurada do castelo e janta-se à luz de velas.

As igrejas da capital não ficam atrás. A começar pela catedral gótica de São Martinho, erguida no século 13 e famosa por ter sido o local oficial da coroação dos imperadores austro- húngaros por quase 300 anos, entre 1563 e 1830. Seu estilo medieval soturno contrasta com a leveza da Igreja de Santa Isabel, mais conhecida como “Igreja Azul”, construída totalmente no estilo art nouveau em 1908.

Por sinal, essa instigante contraposição de cenários antigos e modernos é uma constante em Bratislava. Apenas 900 metros separam o Portão de São Miguel (Michalská Brána, em eslovaco) da Ponte Nova (Nový Most). O primeiro data do ano 1300 e coleciona sete séculos de história. Apesar do nome, é, na verdade, uma torre com uma passagem estreita embaixo; por ela marcharam soldados em batalha, reis recém-coroados, músicos famosos (como Beethoven, que morou ali pertinho) e revolucionários que durante séculos buscaram a independência dos eslovacos – ora em relação aos húngaros, ora rebelando-se contra austríacos e, mais recentemente, refutando o domínio alemão, na Segunda Guerra Mundial.

Bratislava (Foto: shutterstock.com)

Bratislava (Foto: shutterstock.com)

A Ponte Nova, por sua vez, é um prodígio de arquitetura futurista, erguida sobre o Danúbio nos anos 1970, durante o período comunista. Sua torre de sustentação lembra um disco voador, o que a tornou o cartão-postal de Bratislava. Em comum com o Portão de São Miguel, só a sofisticação que ronda ambos. As casinhas anexas ao portão medieval foram tomadas por lojas de grifes como Christian Dior, Ralph Lauren, Louis Vuitton, Dolce & Gabbana, Gucci, Versace, Prada, Swarowski, Tiffany’s, Bvlgari e muitas outras. Já a ponte futurista ganhou, no alto de sua torre, um restaurante giratório. É o UFO, de alta-gastronomia, vencedor em 2012 do Gurman Award, que premia os melhores da culinária na Europa Central.

O centro histórico caracteriza-se por muitos palácios barrocos. Um deles, o Grassalkovich, construído em 1760, é agora a residência do Presidente da República. Sua beleza rivaliza com a do Palácio Arzobispal Lacika, onde, em 1805, representantes de Napoleão Bonaparte e do Imperador Francisco I da Áustria assinaram o tratado de paz após a vitória francesa na Batalha de Austerlitz.

Por falar em Napoleão, uma curiosidade pra lá de divertida permeia a cidade. Diversas construções revelam balas de canhão encravadas nas suas fachadas. Aos desavisados, parecem cicatrizes de antigas batalhas, mas, na verdade, é só uma amostra da malandragem à moda eslovaca. Isso porque, no começo do Século 19, o governo passou a oferecer uma indenização para quem tivesse sua propriedade atacada pelas tropas napoleônicas. O resultado foi uma “caçada” a balas de canhão nos campos de batalha longínquos. Elas eram coletadas, trazidas a Bratislava e sorrateiramente implantadas nas paredes na calada da noite, para justificar a recompensa financeira.

Os eslovacos, é bom dizer, são donos de um temperamento surpreendentemente descontraído – bem diferente dos seus austeros vizinhos da Áustria. E esse bom humor permeia a cidade. Haja vista a série de estátuas incomuns instaladas pela prefeitura no centro histórico. Há desde um paparazzo de bronze até um soldado bonachão saindo de um bueiro, como quem espia por baixo da saia das mulheres que passam. Fotografia obrigatória para os turistas.

A descontração também pode ser testemunhada na “praia de Bratislava”. É assim que muitos apelidaram a região do Eurovea – um empreendimento à beira do Rio Danúbio que inclui shopping center, cinemas, galerias de arte, hotéis, dezenas de restaurantes e áreas de lazer. O calçadão que margeia o rio fica lotado nos fins de tarde, seja de executivos curtindo a happy hour nos bares, seja de estudantes fazendo piquenique no gramado. E, mais recentemente, os turistas também passaram a frequentar o local. Faz sentido: a menos de 500 metros dali há unidades das cadeias de hotéis Sheraton, Marriott, Tulip, Radisson SAS e Holiday Inn.

Do folclore à neve

Conforme se sai da capital rumo ao interior, dá para perder a conta dos castelos e fortificações que despontam pelos 500 quilômetros de extensão entre os dois extremos do país. São de todos os tipos: dos medievais aos erguidos no século 19, dos bem conservados aos que estão em ruínas, dos que ocupam a beira da estrada aos que se isolam no alto de montanhas inacessíveis.

Logo nos arredores de Bratislava, destaca-se o Castelo de Devin, no cume de um penhasco de frente para o encontro dos rios Morava e Danúbio. É um dos mais importantes sitos arqueológicos da Eslováquia, já que teve papel decisivo tanto nas batalhas do Império Áustro-Húngaro quanto nas Guerras Napoleônicas.

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(Foto: shutterstock.com)

Mais adiante, a 60 quilômetros da capital, surge a vilazinha medieval de Smolenice, com sua fortaleza que foi alvo da ira de Napoleão Bonaparte em 1809 – o general francês ordenou que fosse incendiada. A estrutura, porém, era tão forte que sobreviveu às chamas e continuou de pé, resistindo, ainda, a um ataque nazista durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Hoje em dia é um grande centro de convenções.

Já na cidade vizinha de Trencin, além do terceiro maior castelo do país, chamam a atenção duas outras peculiaridades. A primeira é a existência de diversos sinais da ocupação romana, há mais de 1500 anos. São desde inscrições nas rochas até pequenas ruínas, que por muito tempo passaram despercebidas. A segunda é a vilazinha de Trencianske Teplice, com seu spa instalado numa construção do ano 1300. Suas piscinas de águas sulfurosas quentinhas, originárias de uma fonte subterrânea, atraem milhares de turistas nos finais de semana e se tornaram sinônimo de relaxamento no país. Há locais para massagens, banhos de lama e tratamentos de pele oferecidos pelos oito hotéis no entorno das fontes.

Quem vai até lá geralmente aproveita para conhecer Bojnice, onde fica o mais antigo zoológico da Eslováquia, assim como o castelo mais visitado de todos. Ao contrário da maioria das fortalezas eslovacas, ele não foi construído em estilo gótico, mas sim românico, com paredes de mármore travertino que encantam até os menos afeitos a prodígios de arquitetura. Está lá desde o ano 1113 e atualmente é sede do Festival de Música da Eslováquia, todos os anos, em julho, e do Encontro Internacional de Fantasmas e Espíritos, em maio. Por isso, se tornou também uma das construções mais requisitadas da Europa para servir de cenário de filmes de temática medieval.

De Bojnice a Kosice, já quase na fronteira com a Ucrânia, outras dezenas de fortalezas pontuam os caminhos – incluindo o Castelo de Spis, o maior do país e 6º maior do mundo. Declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, ele recebe 170 mil visitantes por ano. E o número só não é maior porque passa boa parte do tempo interditado para gravações de sucessos do cinema. Ali foram filmadas obras como Coração de Dragão (estrelado por Dennis Quaid em 1996) e A Última Legião (com Ben Kingsley e Colin Firth, em 2007), entre outros.

As atrações na região centro-norte do país, contudo, vão além dos castelos. Na fronteira com a Polônia despontam os Montes Tatras – a parte mais alta da Cordilheira dos Cárpatos, que se inicia na Romênia, a mil quilômetros dali, e termina na República Tcheca. Os Montes Tatras são uma das mais charmosas opções de lugar para praticar esportes de inverno na Europa Central, tanto que atraem milhares de poloneses, austríacos, húngaros e tchecos entre novembro e março, a ponto de formar grandes congestionamentos nas tortuosas estradinhas montanha acima.

No caminho para as estações de esqui, os visitantes aproveitam para conhecer lugares idílicos como a Vila de Terchová, onde o tempo parece ter parado no Século18. Seus albergues e restaurantes exibem funcionários vestidos à moda antiga, que recebem os turistas tocando músicas folclóricas e servem delícias como o Bryndzove Halusky – o prato que melhor representa a culinária eslovaca. O lugar ideal para prová-lo é o pequeno restaurante Janosikova Koliba, que mais parece uma hospedaria do Século 19.

A iguaria ali servida lembra o nhoque italiano (é feita de batata), mas tem sabor único, graças à adição de um molho à base do queijo típico bryndza e de bacon temperado com ervas locais. Para os enófilos, vale lembrar que os vinhos eslovacos são de primeira qualidade e só não conquistaram o mundo porque a produção é muito pequena, suficiente apenas para abastecer o consumo dos próprios habitantes e dos turistas.

A subida para as pistas de esqui revela, como não poderia ser diferente, ainda mais castelos. O mais impressionante deles é o de Orava, encravado no alto de uma rocha a 520 metros de altura. Nas suas dependências foi filmado o clássico do cinema Nosferatu, em 1922, o que lhe garantiu fama internacional. Uma vez no território das neves, a paisagem deixa qualquer um boquiaberto.

Basta citar a pequena localidade de Strbske Pleso, onde um lago de montanha congela entre dezembro e fevereiro, transformando-se num verdadeiro playground para quem gosta de patinar. Em torno dele, não faltam hotéis de estirpe, como o Pátria – um dos preferidos dos esquiadores. Foi construído em 1976 para abrigar a nata do Partido Comunista, inclusive em seus congressos e encontros políticos. Hoje, com um simpático spa, área de lazer que inclui até pista de boliche e toda a estrutura para esquiadores, é um must na região.

Mesmo que você não seja afeito a esportes de neve, vale a pena passar por ali. A vista panorâmica do lago congelado, das montanhas nevadas e das construções que remetem a um passado cheio de glamour são o bastante para fechar de modo triunfal sua passagem pelo “pequeno grande país”.

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