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Canadá nos trilhos: Toronto a Vancouver de trem

Canadá nos trilhos: Toronto a Vancouver de trem

Embarcamos em uma jornada transcontinental, cruzando de Toronto a Vancouver em quatro dias a bordo do trem The Canadian. Tudo para ver as impressionantes Montanhas Rochosas

Por Cristiane Sinatura

Quatro noites, 4.466 quilômetros. Parecia um tanto insólita a ideia de cruzar o Canadá de trem. Mas essa era a proposta e lá estava eu, bilhete em mãos e pronta para embarcar no The Canadian, o lendário trem dos anos 1950 que faz trajetos entre Toronto e Vancouver e vice-versa. Essa é uma viagem de contemplação. Ao longo de boa parte das 80 horas seguintes, eu veria passar pela janela uma sucessão de paisagens sortidas. Campos. Plantações. Pradarias. Rolos de feno. Lagos. Uma casinha aqui e outra ali. Com sorte, alces, veados, cabras selvagens e até ursos poderiam ser avistados. E então as montanhas – mas não quaisquer montanhas. Eram as Rochosas, paisagem mais esperada da jornada, que só chegaria no último dia a bordo.

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E essa também é uma viagem de reflexão. Não tem TV, não tem Wi-Fi, não tem telefone. Três dias: você e você mesmo. Para mim, a janela do trem fazia as vezes de televisão e os outros passageiros eram os personagens, sobre quem eu passava o tempo criando histórias – como a Senhora Rosetta, cor-de-rosa da cabeça aos pés, que escondia no sutiã os vidros de geleia do café da manhã; o Japonês-Que- Usou-O-Mesmo-Paletó-Branco-A-Viagem- Toda e o Velho-Com-Cara-De-Maníaco-Que- Não-Parava-De-Encarar. Tédio? Não maior do que o alívio de, por um belo punhado de horas, livrar-me da compulsão por checar as notificações de Facebook, WhatsApp, e-mail… A vida (também) é boa sem tecnologia.

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Também quero viajar neste trem…

O Canadian parte três vezes por semana na alta temporada, que vai de maio a outubro, e duas vezes na baixa, entre outubro e abril, tanto de Vancouver como de Toronto. Fiz a viagem em uma tacada só, quatro dias direto. Mas também há a opção de descer nas paradas, passar algumas noites nelas e embarcar de novo no trem seguinte, com o mesmo bilhete.

Comprando a passagem pelo site da Via Rail, companhia responsável pelos trens canadenses, é possível selecionar apenas uma parada no meio da rota completa. Já com operadoras de viagem, dá para acrescentar uma segunda parada – a empresa pretende incluir essa ferramental em seu site ainda este ano. E também pode-se fazer trechos menores em vez do percurso completo, como o de VancouverJasper, mais bonito de todos.

Parque Nacional de Jasper - foto: Shutterstock

Parque Nacional de Jasper – foto: Shutterstock

Ao todo, ao longo do trajeto, o trem faz cerca de 50 paradas, passando por cinco estados e atravessando quatro fusos horários. Ou seja, você diminui uma hora no relógio a cada noite, praticamente. Poucas pausas dão tempo suficiente (não mais que quatro horas) para esticar as pernas em uma caminhada. Por terem mais atrativos, Winnipeg e Jasper, por exemplo, são boas opções para descer e fazer um pernoite. Recomendo parar nessas cidades, tirar uns dias para cada uma delas e continuar a jornada pelos trilhos no trem seguinte. Apenas fique atento à data da próxima composição.

Mas por que eu faria uma viagem longa assim?

Porque você tem a chance de conhecer o Canadá de um jeito diferente. Embrenhar-se pelo interior de um país é sempre o melhor caminho para ver como as pessoas vivem longe dos destinos turísticos. No Canadá, você vai ver, é muita terra e pouca gente. Vão-se passar quilômetros sem um mínimo sinal de vida. E surgirão vilas remotas, longe de qualquer cidade grande, que farão você imaginar como seria morar ali – principalmente quando você se depara com os amish, cristãos conservadores que se vestem e vivem como antigamente, sem o uso de tecnologia.

Comer, dormir, tomar banho… Como faz?

Fazendo. E fazendo direito. Antes de qualquer coisa, é preciso rever a imagem que se faz de um trem. Se você vai passar quatro noites dentro dele, provavelmente não vai ficar muito confortável em uma poltrona reclinável. Pois bem. O Canadian não é só uma fila de vagões preenchidos com assentos. Há cabines de dormir, com camas montáveis; há chuveiros; há restaurante. Tem, sim, a classe econômica, na qual os passageiros vão sentados e as refeições não estão inclusas no pacote. Mas isso só vale a pena para quem for fazer trechos menores, não a viagem toda. Uma noite dormindo em poltrona reclinada, vá lá, nada que nunca se tenha experimentado em um avião. Mas quatro noites já é demais, não? Então, vai bem escolher entre três opções da categoria Sleeper.

A primeira, mais simples, são os berths – beliches ao longo dos vagões que podem ser “isoladas” por uma cortininha. Depois, vêm as cabines individuais para até quatro pessoas. A que comporta apenas um passageiro é um pequeno “cômodo” com porta, que funciona no esquema “3 em 1”: vaso sanitário, poltrona e cama no mesmo ambiente. Já as cabines para duas, três ou quatro pessoas são, apesar de compactas, bastante confortáveis e chegam mesmo a parecer um quarto de navio, com poltronas que, dobradas à noite, viram suporte para as camas. Em um pequeno compartimento, há vaso sanitário e pia. Só o chuveiro que é compartilhado – um por vagão. A novidade, lançada no ano passado, é a Prestige Sleeper Class, cabine que garante maior conforto, com cama de casal (que pode virar um sofá em L durante o dia) e chuveiro privativo.

The Canadian - foto: Divulgação

The Canadian – foto: Divulgação

Também há os vagões de “convivência”, como se fossem salas de estar, nos quais os passageiros se reúnem ao longo do dia para prosear, jogar baralho, tomar um café ou, à noite, um drinque – especialmente no último vagão, que tem bar e janelas panorâmicas. Passageiros da categoria Sleeper, vale dizer, têm à sua disposição biscoitos, chá e café o dia todo. E além disso, o que fazer a bordo? Não espere grandes agitações (a viagem é de contemplação, lembra?). O dia começa e termina cedo. O trem tem alguma programação, sim, mas nada como navios de cruzeiro, por exemplo. Atividades como degustação de vinhos, exibição de filmes, palestras sobre a região e apresentações de músicos ao vivo dão conta de ocupar um tempinho dos passageiros. De resto, é bom caprichar no arsenal de livros, filmes, séries e músicas.

Ponto alto da viagem são, certamente, as refeições. Comida de trem, pelo menos no Canadian, em nada lembra a de avião. Um chef prepara tudo a bordo, fresquinho. Os passageiros podem escolher turnos para comer no vagão-restaurante, no qual almoço e jantar incluem opções de entrada, prato, sobremesa e bebidas não alcoólicas. O café da manhã também é à la carte.

Viagem para contemplar

A maioria dos passageiros do Canadian é gente mais velha, aposentados, viajan-tes experientes. Quando jovens, eles prova-velmente já cumpriram o roteiro clássico de todo e qualquer turista apressado em Paris, Roma, Londres. Agora, vividos, escolhem via-gens que lhes permitam desacelerar, refletir, apreciar. Mais pela jornada, não tanto pelo destino em si. Pois, como diz uma frase da escritora americana Ursula K. Le Guin, erroneamente atribuída a Ernest Hemingway, ”é bom ter um fim de jornada em vista, mas é a jornada que importa, no final”.

Viagem a convite da VIA Rail e da Air Canada

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