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Alsácia: uma nova França para descobrir

Alsácia: uma nova França para descobrir

Com sotaque alemão e jeitinho francês, essa região no leste do país desponta como uma deliciosa aposta de viagem

Por Tarcila Ferro

Paris, Vale do Loire, Bordeaux, Borgonha e Costa Azul são os grandes trunfos do turismo francês. Em termos de paisagens, cultura, culinária, aromas e sensações, eles são simplesmente arrebatadores. Mas além dos destinos mais conhecidos, o país ainda reserva boas surpresas a serem descobertas pelos brasileiros, como a
Alsácia, localizada no extremo leste do território, coladinha à Alemanha e à Suíça.

Situada ao longo do Rio Reno, a Alsácia é um território singular dentro da França. Suas fronteiras foram motivo de disputa com os alemães e esses sobressaltos da História fizeram com que a região conservasse uma memória regional muito forte. O passado dividido entre duas nações é sentido ainda hoje ao visitar cidades como Estrasburgo, Colmar, Mulhouse e os diversos vilarejos que permeiam a Rota do Vinho. É uma França com sotaque alemão!

Também por esse motivo, a gastronomia alsaciana é um capítulo à parte. A influência germânica deu um toque peculiar às receitas locais, resultando em uma cozinha em que o foie gras e chucrute dividem o mesmo cardápio. Esse detalhe garante um tempero especial à já premiada culinária francesa. E o Guia Michelin não deixa mentir: lá se encontra a maior concentração de restaurantes estrelados da França: 30 ao todo.

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Mas comer bem não é a única regra. As cidades charmosas e as vilas que parecem ter saído de algum conto infantil garantem uma vigem de sabores e muita história. Um bom exemplo disso está em Colmar, bem no centro da Alsácia. Sua localização privilegiada a tornou a base para explorar o território, permitindo acesso rápido à famosa Rota dos Vinhos e a diversos povoados medievais. Dali é possível esticar até a capital Estrasburgo, ao norte, ou ir a Mulhouse, no sul.

(Foto: shutterstock.com)

(Foto: shutterstock.com)

Mas não pense em Colmar apenas como ponto de apoio. Há muito o que se fazer nessa cidade com atmosfera interiorana e acolhedora. Muitas ruas têm calçamento de pedra e são rodeadas por casas no estilo Colombage (semelhante ao enxaimel), com jardineiras repletas de flores. Entre as atrações está o centro antigo e a Petite Venise (Pequena Veneza), com suas pontes sobre o Rio La Launch. Suas margens são cercadas por restaurantes que rendem românticos jantares à beira do canal.

Colmar ficou conhecida por ter sido o lugar onde nasceu Frédéric Auguste Bartholdi, idealizador da Estátua da Liberdade, monumento que a França deu de presente aos Estados Unidos em 1886. A casa em que morou nos primeiros anos de vida abriga um museu que repassa seus principais trabalhos. O destaque, como não poderia deixar de ser, são os croquis e maquetes da estátua americana. Ainda é possível ver os móveis que pertenceram à família e os objetos pessoais do artista.

Mas o acervo mais importante está no Museu d’Unterlinden. Aberto em um antigo convento dominicano do século 13, o edifício foi convertido em museu cinco séculos depois. Da época, preservaram-se as rígidas paredes de pedras e as reforça das vigas em madeira. Ao caminhar pelos corredores, telas da Idade Média e da Renascença recheiam as salas de exposição. Muitas obras levam a assinatura do artista alemão Martin Schongauer, que viveu muitos anos em Colmar. Suas gravuras ganharam ampla repercussão na Europa.

Outro nome de peso é o de Matthias Grünewald, também alemão, e autor do Retábulo d’Issenheim, uma das principais obras da coleção. São nove painéis de madeira com pinturas a óleo. Um impressionante mural que representa a crucificação de Cristo completa o acervo. Não é para menos que o museu recebe cerca de 200 mil visitantes todos os anos.

Próximo ao museu d’Unterlinden, a casa Maison des Tetês, do século 17, é um requintado restaurante e hotel. Sua fachada é a grande atração: há 120 cabeças esculpidas em pedra. O antigo proprietário queria mostrar que era um homem rico e desejava impressionar a quem passava. No topo, há uma escultura feita de estanho assinada por Bartholdi. Outra casa histórica é a Maison Pfiser, construída em 1537 pelo chapeleiro Ludwing Scherer. A frente do edifício é pintada com uma série de imagens bíblicas e figuras alegóricas – um retrato do gosto e da estética adotada pela burguesia do século 16.

Colmar torna-se ainda mais atraente no final do ano, quando os Mercados de Natal (Marchés de Noël) estão em funcionamento. As banquinhas repletas de objetos de arte e brinquedos invadem e colorem as ruas. O mais bacana é ver os próprios produtores comercializando e falando sobre seus artigos, já que itens industrializados quase não têm vez por ali.

Torta de maçã típica da Alsácia (Foto: shutterstock.com)

Torta de maçã típica da Alsácia (Foto: shutterstock.com)

Independente do período, é sempre época de comer bem. O gostinho da região pode ser saboreado em uma das incontáveis weinstubes – restaurantes onde o vinho é servido em jarras e as receitas típicas são o carro chefe. Espere encontrar tortas de cebola e de maçã, chucrute, kassler (lombo suíno) e salada alsaciana (com salsicha branca e queijo gruyère).

Um pouco mais refinados são os restaurantes contemporâneos, à moda do imperdível JY’S, aberto em um casarão na Petite Venise. O peso de ter uma estrela Michelin não inflacionou o cardápio. O menu do almoço custa € 39 e isso inclui entrada, prato principal e sobremesa. E não espere encontrar receitas clássicas; o sucesso da casa está exatamente na harmoniosa mistura gastronômica proposta pelo chef Jean-Yves Schillinger: ele funde as influências que vêm de ambos os lados da fronteira com a Alemanha.

Outra boa pedida é o restaurante La Table de Louise, bem pertinho do centro antigo. O menu convencional custa € 21,90 e conta com Ballotine de frango (espécie de rocambole) com bolinhos de ricota e ervas frescas, filé de cavala, risoto e termina com um sorbet de morango. A milenar Estrasburgo A 84 quilômetros de Colmar, surge Estrasburgo, a capital da Alsácia. A cidade de arquitetura alemã e alma francesa é sede do Parlamento Europeu e carrega o título de capital europeia junto com Bruxelas, na Bélgica.

O parlamento representa cerca de 500 milhões de cidadãos dos 27 Estados-Membros da União. A sede do órgão, um prédio envidraçado e de formato arredondado, é aberta aos turistas. São organizados passeios para grupos de 15 a 50 pessoas, que têm a oportunidade de assistir a uma sessão plenária e aos debates. O tour é gratuito e, devido à alta procura, recomenda-se agendar a visita com pelo menos dois meses de antecedência (europarl.europa.eu).

(Foto: shutterstock.com)

(Foto: shutterstock.com)

Mas o parlamento não é a única coisa a ser fazer por lá. Estrasburgo tem mais de dois mil anos e cada rua e esquina guardam um pedacinho de sua história. O centro antigo é considerado Patrimônio da Humanidade e tem como atração principal a imponente catedral. Erguida em estilo gótico, foram necessários mais de 300 anos para completá-la. As obras começaram em 1166 e só terminaram três séculos depois, em 1439. Com paredes em tons avermelhados e ostentando uma torre de 142 metros, o monumento tem verdadeiras obras de arte em seu interior.

A principal delas é o relógio astronômico de 18 metros, criado no século 16. Com um sistema semelhante a um cuco, ele foi idealizado por um time de relojoeiros suíços. O que mais impressiona é a precisão com que marca os dias, horas, meses e os anos. E mais: diariamente, às 12h30, ele começa uma verdadeira encenação com bonecos, que representam os apóstolos, Cristo, a morte e o homem.

Além da engenhoca, ornam a construção mais de 1500 metros de vitrais e telas com cenas bíblicas, que em tempos remotos serviam para ensinar os preceitos religiosos à população analfabeta. Não dá para falar da catedral da cidade sem citar o apreço que a população tem por seu principal símbolo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os moradores, temendo uma invasão alemã, retiraram os vitrais do edifício, acomodaram aspeças em caixas e as esconderam. Parte da cidade foi arrasada pelos bombardeios, mas o templo sobreviveu, com apenas uma parte da cripta danificada. Essa área foi reconstruída pela União Europeia e virou um dos símbolos do Euro.

Outro marco local é a Petite France. Assim como o que ocorre em Colmar, os ares venezianos envolvem a todos, graças aos canais, belas pontes e casas típicas beirando a água. É o lugar mais charmoso da capital – cenário bem diferente de séculos passados, quando o canal era usado pelos curtidores de couro e o cheiro
do material impregnava toda a vizinhança.

Apesar do seu apelo medieval e histórico, Estrasburgo vibra em uma atmosfera jovem e cultural – reflexo dos mais de 60 mil estudantes que frequentam as universidades da capital. A noite é animada pelos diversos bares, incluindo os weinstubes. Para nunca mais esquecer este lugar, nada como jantar no requintado Au Crocodile e saborear pratos como a terrine de veado e o cheesecake de frutas vermelhas. São de comer rezando…

Pela rota do vinho

O percurso alsaciano famoso por suas vinícolas tem ao todo 170 quilômetros de estradas, que passam por vilarejos medievais, cidades muradas, igrejas romanas e uma infinidade de videiras. Geralmente, entre setembro e o final de outubro, época da vindima, a rota fica ainda mais bela e irresistível. A fama é atribuída aos vinhos brancos, que representam 90% da produção. São setevariedades de uvas cultivadas nos terroirs das região: riesling, muscat, pinot blanc, pinot gris, pinot noir, sylvaner e gewürztraminer.

Em cada rincão do roteiro é possível encontrar vinhas centenárias, cuja tradição não se perdeu entre as gerações. Esse é o caso da vinícola da família Beyer, fabricante desde 1580. No casarão da família, na pitoresca vila de Eguisheim, Madeleine Beyer, extrovertida senhora que faz com afinco o marketing de sua adega,
gosta de comentar com os visitantes o sucesso do seu riesling, safra de 2002, eleito um dos melhores vinhos daquele ano.

Estrasburgo (Foto: shutterstock.com)

Estrasburgo (Foto: shutterstock.com)

Assim como acontece na vinícola Beyer, nas caves dos pequenos produtores sempre há alguém repleto de entusiasmo para explicar aos visitantes tudo sobre seus principais rótulos. Muitas degustações são gratuitas e é quase impossível sair sem levar pelo menos uma garrafa. Quem optar por fazer apenas um trecho do circuito pode se focar nos 80 quilômetros entre Colmar e Estrasburgo. Outra parada providencial é em Riquewihr, um dos endereços mais importantes do trajeto. A vila é repleta de lojinhas, docerias, adegas e restaurantes caseiros que ofertam aquilo que a região tem de mais saboroso.

Mas nem tudo é antigo. Fugindo do visual rústico, a cave Bott Frères, na vila Ribeauville, investiu em uma moderna adega e um programa de visitação bem planejado
que mostra da colheita ao engarrafamento. O trabalho é criterioso – afinal, para os franceses, vinho não é apenas uma bebida, mas um tesouro, uma joia líquida que tem de ser manuseada por ourives experientes e apaixonados. Como eles realmente são.

  • Tarcila Ferro viajou a convite da Agência de Desenvolvimento de Turismo da Alta Alsácia

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